30.12.16

Retrospectiva

o que passou
e retorna
- (re)fluxo:
o grão de areia
que ontem foi neve,
agora é desejo.

frissom do querer
pele-a-pele, ardor,
a certeza inconsciente,
imemorável,
de um (re)encontro.

querer distância
- armadilha cósmica -
que só (re)alimenta
o fluxo de um desejo
por poros e fluídos.

algo em mim grita,
se rebela, anseia;
outro toma assento,
mira, espera.
fomos muitos e hoje
sou tantos.

retrospectivas, perspectivas,
me atenho ao teu desejo.
ainda sem saber lidar
com tantos em mim,
sigo, em (re)entrâncias,
a perdição de tua
etérea presença.

11.12.16

Desconexo

Cai de um salto, abrupta
imagem de pano, cotidiano roto.

Circunda-se uma ideia,
alimentam-na para, então,
desnutri-la, falando, falando, falando.

Quantos dias te esperei:
um telefonema - nada!
(briga-se, anseio, projeções)

Ausência de lugar,
unicamente os sentimentos, 
eis a mente perturbada,
feroz, irremediável, virulenta, covarde.

Precisava dizer "eu te amo"
Precisava dizer "eu te amo"

Quando me reduzi a duas ou três malas,
o enxame de insetos se dissipou,
batendo em retirada:
triunfante, dormi um sonho de verão.

Animais, amuletos e reticências
segundo sol, sexto sentido,
dias incontáveis, hierarquias atropeladas,
eu a teu lado - insanidade.

4.12.16

fitar

era beijar, corpo, roçar
noite em claro, cheiro, dança, poros
negra pantera do rubro lunar
era do prazer, visão do querer
enquanto se fitavam mutuamente.

Guerra

Atravessamos o luar, bestiais sonhos
artifícios de anêmonas cheirando a álcool
as víboras cantavam, fogos de artifício em teu peito
perdidos pelo portal
inventava histórias, infames batalhas suicidas
- o poço, um cigarro, aqueles lábios
moços comportados, meia arrastão, ardência incontida -
névoa cinza de outono, recomeçar insensato
juncado púrpura,
o bandolim irrompia em dormitório, vícios
adornos decaídos, gentileza inútil, indomável sonhar
- a guerra frigia em tua pele.


28.11.16

como amar, também aprendi

o amor não finda, se sabe que sempre se está a aprender a amar. o amor finda e acaba em rancor e ressentimento desde quando se pretende saber tudo sobre o amar. o amor é surpresa, é espanto, é vislumbre, é estalo. amar tampouco é rivalidade, disputa egoica, competição intransigente. amar nem é salvação, o último suspiro que traz o paraíso. amor é terreno acidentado, mas acolhedor. é natureza selvagem, aquela a exigir humildade e desprendimento, confiança e coragem. um tanto cabana no campo ou casebre na praia, quando a noite gelada e a densa maresia impregnam a pele com a frescura do inexplorado. amar não é condição palpável. e o amor, tão perigoso e acolhedor, ainda é aventura desprendida, que junta, espalha e faz borbulhar o inesperado ar da renovação e reposição do incessante sonho do prazer.

14.11.16

Paixão e amizade, amor

Os gregos antigos falavam que a amizade era a condição para a política. Para se fazer política - essa atividade de seres humanos que decidem autonomamente seu futuro - era necessário construir a amizade. A amizade enquanto a constituição de um mundo comum, pelo estabelecimento de relações afetuosas, através da linguagem humana, que respeite as diferenças. Ter amigos é essa coisa tão bela da vida.

Tenho me perguntado sobre a relação entre amizade e paixão. Seriam dois sentimentos antagônicos? Talvez não antagônicos, mas quase que impossíveis de se encontrarem num mesmo lugar e momento? Onde há paixão deixa de existir amizade? Ou, como pensavam os gregos antigos, a amizade seria uma construção feita primordialmente pela linguagem, portanto predominando a racionalidade em detrimento de sentimentos como a paixão?

A amizade se basearia na paixão, sim, mas com uma boa distância em relação ao outro, nosso amigo ou amiga. E, nesse sentido, não seria possível apaixonar-se por um amigo, pois a amizade cessaria, perderia o distanciamento necessário.

Wislawa Szymborska assim escreveu, no poema "Gratidão", sobre o amor (que aqui estou chamando "paixão"): "Devo muito / aos que não amo. / O alívio com que aceito / que sejam mais benquistos por outros". Pois é esse alívio - o qual só a amizade pode nos dar - que permite entender e perdoar o que jamais o amor (ou a paixão) entenderia ou perdoaria. Assim é que "Desde o encontro até a carta / não passa uma eternidade, / senão simplesmente dias ou semanas". O tempo da amizade é um; o da paixão, outro.

Não sei, não quero acreditar nessa incompatibilidade entre amizade e paixão. Tenho pensado que esse seria um dos desafios de nossa existência na rápida passagem por esse plano astral. Viver a amizade e a paixão, juntos, simultaneamente. Não só no sentido do "minha paixão é minha melhor amiga". Mas em sentidos mais sutis, que envolvem sentimentos tão carregados de energia, de identificação, que mal conseguimos controlar. Como o medo de se apaixonar por um amigo e perder a amizade. Ou o fim da paixão que é o fim de toda e qualquer possibilidade de amizade.

Creio que um desafio tremendo seja ir da paixão à amizade (e vice-versa) sem perder algo no meio de todos esses sentimentos tão intensos: o amor. O amor está em tudo, é a fonte vital. E assim como não nascemos sabendo amar (pois o erro, quem sabe, é supor que já se sabe amar), nos esquecemos do amor. Paixão é amor. Amizade é amor. Viver é amar: o que emana do centro vital do cosmo que está em nós.

Então a paixão que vira amizade pode ser aquela que reverencia o amor que está em todos nós. Transitar bem entre esses sentimentos - principalmente nas paixões mais intensas - é fazer um grande exercício de compreensão sobre o amor que nos atravessa. O hercúleo exercício de entender onde está o amor em determinado momento de paixão ou de amizade. Ou, mesmo, questionar se o amor tem que estar em algum desses polos. Vivenciar a paixão que é um tanto de amizade, ou aquela que agora (depois de tudo, tão intensa e carnalmente, sentida) é um tanto mais de amizade. Enfim, aceitar que o amor está lá, a ser reverenciado.

2.11.16

Mar, chama

e foi, quando o mar chamou, um para sempre que é sempre agora, não há como titubear - só se pensar, mesmo pouco -, tá na pele, que ali sua, impregna-se do óleo da terra, de tantos mil anos de rastros, encontros, nós, passagens, insisto nisso, se intue, o corpo relaxou, sentiu-se em casa (primeva vez em tão longe paragem que é aquele antigo pedaço de mundo), rebeldia no que se mira, nada fácil, muita possibilidade, novos circuitos que se avizinham, há um convite sendo feito, se a perspectiva revirar, o uso e gozo que é outra riqueza, o mar chama.

1.11.16

Lunar

em meu sangue
ainda arde
o calor daquela lua cheia,
incendiária dama,
tórrida fruta carnal,
dias e noites
do amor urdido
em tramas de fluidos,
essências, toques
e profundos sentires,
dos quais ainda escapam
teu rutilar sussurro
e felino roçar
(ainda somos terra,
poeira rumo ao astro,
inescapável desejo
de pulsar incessante)
lua cheia, pele, 
suspensão do tempo,
calor, entrega, pegadas
que sigo, sentires
de sem fim, mergulho
vertiginoso em ti.

11.9.16

Jornada


Nos dias de amor e coragem,
a dedicação ao sol inspira o tempo
e crispa lá dentro a certeza de nada,
exercício vibrátil do desprendimento
enquanto flores se abrem e um relampejo
da continuidade em jornada
toma a consciência do corpo sutil.

O constante reencontro, 
uma tarde de céu azul, nuvens.

4.9.16

Um tal prazer

Os cavalos de fogo em verborragia anárquica pela benevolente paixão estão em êxtase desde o vislumbre da proliferação do amor na corrente, sanguínea, enquanto o céu emudecia sobre a discrepância da paisagem delirante do frio de setembro, não há referência que justifique, estandarte que suporte a vicissitude das pequenas partículas de areia que adentram sua aura, ele e ela e mais ele juntos nus, sucumbindo ao sim, sentindo a palavra amor - a mais frequente referência rotina humana dos últimos mil anos -, rindo sobre a água a escorrer pela banheira, a porta que se abre, associações que se fecham, amplitudes até antes ignoradas se projetam no pequeno tijolo oculto à esquerda do balcão, quais serão os céus e os limites a ignorar - não, talvez não queira deixar que o resquício de uma paixão esquecida afete suas projeções -, se a pujança do inseto instigar a vigilância, acabou-se, acabou-se, pedras roídas por ratos gigantes, ondas de pó que sacodem os orifícios, os surfistas dormiram na praia seca pela manhã, meu amor acordou agitado às três da madrugada, sonolento céu de infindáveis alucinações.

1.9.16

Agosto

Agosto, o mês que não acaba,
o mês que ensandece,
estranho, algoz, injusto
agosto, tão incompreensível.

Que se contragolpeiem
com doçura e fortaleza
os golpes de agosto,
que muito tem a temer
os ratos de esgoto.

Que o amor reverbere
desde o lado ativo do infinito,
com o intento inflexível de um guerreiro,
que venha Setembro!

28.8.16

sinônimos


amor que incendeia
cidade em frenesi
calor de verão
gritos de gozo
amigos que se encontram
ensandecida noite
paixão que enlouquece
delírio de frio
escrita vertiginosa
primeiro beijo
transa na primeira noite
febre do querer
praia deserta
multidão em protesto
música, dança e nascer do sol
a onda quando bate
coração que não cabe no peito
aços e íssimos, íssimas e aças
apaixonadíssima, felizaço
descobertas, inusitado e curiosidades
cheiro, pele, carne e ardor
intensidade da saudade correspondida
relaxamento total
sabedoria do vento
mãos que se entrelaçam
a explosão do cosmos

27.8.16

chave

a pura aceitação
nada está fora
chave da dissolução
o falso problema
ilusão do não
o um que se faz
em circunscrição.

o todo se dissolve
exercício árduo
como resistência
intermitente a sugerir:
o não exterior
como um sim adentro.

vento sopra
e estanca o agora.
dissolução da anterioridade
e do porvir,
a afirmação da negação:
resposta interior,
aceitação do externo
como dissolução de si.

25.8.16

Courage

Ariana e Dionísio

meio tonto,
meio anjo dormido,
vivo pra mim
- creio que tão
só a mim -
uma fábula
invertida,
tragédia grega
sem sentido.
se era pra ser
Dionísio e Ariana,
sinto tão somente
o polo oposto
de antiga dualidade
- eis minha agonia,
por muito, uma ironia.
veja só,
a adorada poetisa
Hilda Hilst assim
cantara:
"A cada noite, eu Ariana, preparando
Aroma e corpo. E o verso a cada noite
Se fazendo de tua sábia ausência."
em recentes imemoráveis noites
tento eu me iluminar
de sábias ausências...
qual a sabedoria da ausência?
ironia? talvez, destino?
tragédia, sim, tragédia,
compreensão que dos gregos
tento decifrar.
uma Ariana tão Dionísio,
um Contemporâneo
tão Antiguidade,
a inversão dos tempos
e do meu coração
é o amor que pulsa
incontrolavelmente
em tua direção.

21.8.16

senhora do tempo

senhora do tempo
e dos encontros,
mãe do céu
e criadora das águas,
em todo sagrado ser
acumula sonhos e poesias,
latentes inspirações
de inimagináveis poderes,
somos o instante
de teu sorriso, ardência e paz,
permanência do agora e
sopro do devir,
influência do luar,
o som primordial,
onipresença das águas,
em madrugada invade
os corpos dos amantes
que te celebram.

17.8.16

Pedaço de diário

05/03/2016
Tudo muito bom, tudo maravilha! O universo se materializa por tentáculos. Sigo o caminho do amor. Temos o lado sombrio. Devemos lidar com esse lado. A cobrança sempre vem. E como trabalhamos com tal? As perguntas se transformam em mistério. Encerram-se em si. Do amor, nada sabemos. Aprendemos. Muitas vezes, não. Escrever não é preencher vazios. E dizer o que fazer e ser é um vazio da alma. Estupenda realidade de um livro. Dor e prazer. Ele escreve. Ela vê. O que é a vida além de coincidências?

16.8.16

meio pra mim, meio pra tu

meio pra mim,
meio pra tu:
um amor nasceu
sem haver fim.

meio inteiro
meio vazio
o desejo arteiro
e o desafio:
fogo da paixão
enquanto meditação.

meio sim
meio talvez
o não que tá
sem vez.

meio em cima,
meio embaixo,
meio atrás,
meio em frente,
toda por inteira
minha boca
que te lê
nos poros de
cem mil madrugas
em atemporais
e cósmicos
orgásticos devaneios.

meio ca,
meio ju:
paixão moleca
de corpo nu.

meio me dou conta,
meio deliro,
dias (ou meses,
já não sei contar)
de física ausência
que me rasgam
ao meio.

meio pra mim,
meio pra tu,
por inteiro,
em intuição,
tenho a convicção
que juntaremos, em cheiro,
o todo que há em mim
com o todo que há em tu.


5.8.16

cósmico querer

quando éramos pedra e sal
milhões de estrelas
galopantes tertúlias armadas
o verbo em desejo
ventos.

misturava meus sonhos
ensandecia teus rastros
pólvora inebriante do caos
tempos de céus em cobre
lua em formação
e instantes minerais.

é profunda a marca do porvir
embaralham-se limites e vontades
miligramas de areias, um deserto
forjam-se espadas, cânticos e ribaltas
é explosão e dor, grito e espanto
deságua em mar, acúmulo de eras
irresistível cósmico querer.

3.8.16

do que permanece

isca, desejo e mel
beijo, calor, talvez volúpia
era vento, suposto enredo
catarse e pele, risos e horizonte
palavras aleatórias,
amor que fica.

31.7.16

Diário de domingo

Todo o lance é fazer o fluxo da vida por outros caminhos. É dar aquela reviravolta. O tal do "turning point". Mudar o padrão de vibração. Para isso é necessário ouvir, sentir a expansão primordial. O teu encanto interior. O que teu coração manda. Essa sutil e potente vibraçãozinha que vem lá de dentro. Assim é que temos um duplo exercício. Um, fazer-se escutar o desejo profundo. Retirar tudo o que sufoca o coração. Essas couraças que não deixam o primordial vibrar. Dois: fazer o fluxo seguir por outras canaletas. Com elegância, modular outros padrões vibratórios. Fazer o tempo parar. Encontrar-se em outra. Curtir o caminho. E seguir por caminhos para os quais a força profunda te impele. Delícia, a vida é uma grande aventura!

28.7.16

haikai matinal

rotina matutina:
praticar
o bom vibrar.

frio e delírio

delírio,
delírio...
delírio!!
no frio eu também deliro!
grata surpresa,
baixa temperatura
que faz delirar.
não só o calor,
mas também o fria ar
leva o espírito,
a se transfigurar.
a prolongada friagem
intensifica as viagens
da alma:
desejo de praia, sol,
calor e, principalmente,
corpos nus.
não só os desertos
ao certo
produzem miragens;
devem existir sim
nos lugares
mais frios deste planeta.
a constante influência
dos ares gélidos
implica a mente
em labirínticas configurações
que me levam
a inauditos
delírios, deliro!!
Terra, sua desconhecida
fonte amante do delírio.

24.7.16

predileção

explicar a paixão
quanto custam os raios do céu?
um dia perdido
o delírio do pai
quando a palavra
pede sua força
e não resta o que
tocar - não o que explicar
paixão, amor, sexo ou amizade
uma roleta
perdida no parque
cair na estrada
fumar e não beber
dirigir tampouco
vidrado em você
às duas da manhã
não sai da cabeça
a incompletude sonora
não dizer nada
às três da manhã
o observador se faz
de mudo
pouco a dizer
voyerismo urbano
amor dilatado, paixão três pontinhos
um olhar às três da tarde
amanhã vai chover.

22.7.16

Gestido


camisetas trançadas
o calçado gasto em areia
sorriu e piscou - ambos em transe
quantos dias para chegar janeiro?
antes tem vênus,
e marte cruzando com a lua
os banhos de mar noturnos
a nudez matinal
flores, sementes e terra
poderia dizer que vinha
inúmeras anotações nada evidentes
passa a embarcação
fica a estrada
e o enredo cresce
com cada gesto,
cada ponta de dedo
em pele, boca e céu
passarinho veio dizer
que lá na esquina
tem coralzinho de moças
coraçõezinhos de deslumbres
e apetitosos cafunés
um livro, um disco, a dúvida
aquela fumaça do calor em dia frio
certa estupidez de pensamento ao caminhar
o que é concreto
em descanso
de terça-feira?

20.7.16

haikai de inverno

delírio de inverno:
sonho de praia
em outro hemisfério.

rascunhos

cartas abertas pela mesa
a caneca de chá
a taça de vinho
o telegrama rascunhado
sol baixando pela janela
gaivotas planam
o limbo no canto da parede
pele que descasca do dedo
quebram pequenas ondulações
rio? mar? areia e vento
raros graus acima de zero
coração que ferve
mais rascunhos que seriam
lápis, caneta ou guache
tintas, carregam vontades
o ardor, o clamor, excitação
última luz, penúltima letra
ausência de elaboração
sentimento intenso.

17.7.16

reciprocidade

uma taça de vinho
o vento silvando na janela
oito graus lá fora
um coração ardente
queimam-se linhas,
entrelinhas e parágrafos
de letras e palavras
que só teimam em dizer:
"te quero".
o telefone que não sona
o desejo que fica:
"me rabisca da cabeça
aos pés - e então
me enrola e corta e
me remenda".
saí com a lua como companheira,
dizia que te amava,
ela sorria, aconselhava,
tenha calma, não queiras,
desejo é nulidade -
ela pensa em você.
lua de saber,
despejo na noite meu
júbilo - confidente
astro desfaz um pedaço
do mistério:
sei que é recíproco.

13.7.16

taberna

bodegas amistosas repletas de vinho. palavras ecoam pelas madeiras envernizadas por suores ébrios em décadas de copos meio vazios, meio cheios. o velho rabugento que sempre sorri como forma de cortesia. o que seria se esconder naquele buraco sujo? procuramos desculpas, sempre desculpas. e uma incapacidade de ser simples e direto - sem medos - faziam pesar as palavras por ali. um beijo, certo dia, pôs abaixo pelo ralo o éter que ludibriava aqueles corpos impregnados de desespero. cinco minutos que não se aguentaram. um beijo que se ansiavam, sem lugar para acontecer, pois já tão carnal. portanto tão rápido. impactante, talvez, mas incapaz de irromper o desejo de vento, afeto e maresia naquela figura cuja vibração carnal já se tornara tão-somente reticências. um beijo passou, assim como passa a corrente de ar gélida de uma noite enevoada de inverno por entre a porta que se abre - e só se quer fechá-la, sem no entanto se ter a vontade de fazê-lo, pois o pensar no simples ato de movimentar a porta (e a enorme satisfação que trará) já toma todo o pensamento, todo o existir, e nenhum imprevisto poderá abalar a tranquilidade do pacato mundo interior. sim, há todos esses tipos de lugares que nos parecem charmosos por dentro, recheados por vibrações de aventuras e emoções que se abrem em conversas e trocas de olhares emergidas de líquidos inebriantes e de pequenos acepipes comestíveis. e sim, existem tipos que decantam os lugares com o verniz dos círculos que se fecham sobre si mesmos. são tipos de lugares que instigam o olhar observador. ver que há o fora e o dentro, o círculo e o fora do círculo. bom, também, é viver lá fora. e adentrar as cavernas para se beijar um beijo que não se espera, mesmo que por míseros cinco minutos.

7.7.16

línguas, palavras

em alguma página de Cortázar:
..."si lo ve"...
em algum pensamento perdido:
si love
em algum medo, inseguro:
si I love
em algum quarto, meia luz:
sí, love
em algum encontro ansiado:
sí, lo ve

5.7.16

Profundezas

Entre pássaros,
arbustos e feixes de luz,
o poderio da semente
crava segredos:
- da terra vibram vozes,
eras de espanto
e tormentas de cores.

29.6.16

Natural

Sou água que move moinhos,
força bruta da beleza,
o cair da cachoeira,
florescência de selvagem prado.

Me atravessa o fogo
e queimo em cerrado inverno.
Vento que arde a brasa,
tenho o sal por onde navego.

Delicado experimento do amor,
em descalça terra finco raízes,
atravessando vidas de mil cosmos
pouso em ventre de acolhida calmaria.

26.6.16

haikai da ardência

quebrar a cintura
no bailado
do teu beijo.

haikai da especiaria

exalar o tempero
da terra
em teu xêro.

haikai do desejo

sossegar o sopro
do dragão
em teu ventre.

ardor

virtudes perambulando
nuas, como escárnios
sem protuberâncias cínicas
vivências de espécimes
lúgubres do resplandecer
viva o cosmos, o som da expansão!!
vento, vento e vento, virulência
peso do astrolábio nas costas
buscando a pá do sal sobre a flor
cai o mar e todo o seu pudor
cai o doce ardor do céu em cor
ritmo lento é névoa que desce
e pontua o ensandecido amor.

24.6.16

tito e a sala

ao buscar o espelho da sala, encontrou um banco que emanava intensa luz. do ângulo de sua visão, o fosco era somente o entalhe, e o justo transbordava a parte menor que brilhava. não era um banco comum. mas carregava algo de ordinário - o que o incomodava. a luz era indireta. um tanto difusa. a suspensão dos minutos provia horas de fixação sobre aquela peça. sentaram-se um, dois, três ou quatro sujeitos. reconheceu todos, figuras familiares. porém o banco continha, ainda, algo de intransigente desassossego. o cheiro da madeira triturada em meio a cravos, fazendo suscitar leves suspensões do estofado, acionava breves imagens distorcidas de momentos recalcados de almas passadas, seculares. madeira de prados, cravos criados: vidas passadas e pulverizadas. o chá do mosto da madeira descansava sobre o banco, o que o insultava. não pelo inusual do quadro. mas pelo quanto a totalidade do cenário o provocava em desejos irrealizáveis. pois não poderiam ser formulados! o banco e o chá... e agora aquele feixe de luz que entrava pelo canto da porta. o sofá brando. a calça amassada. e uma impotência que gostaria de admitir. injusta com seu cosmos. não se tratava de impotência. muito provável a impossibilidade da comunicação. um banco, um chá, uma luz, uma sala e um alguém. só.

3.6.16

Do que vem

Do que será feita
a essência do júblio
quando o que virá
é novo e denso,
envolto em suspense
e tensão,
de longe exalando
intensidade e
singular beleza?

(e mais à frente
- "não temas!" -,
naquela esquina,
te aguardam
o amor e a loucura.)

23.5.16

Febril

O gosto de tua carne
marca minha boca.

Por debaixo da pele
o calor de teus poros
ainda incendeia
a férrea libido.

Sendo suave
és doce e pimenta:
fazes arder papilas
que degustaram teu calor.

Não existiam caminhos abertos;
forjadas em intenso perder e descobrir,
trilhas de impossível mapear
desaguaram em conjunta perdição.

A febre que faz delirar,
não há antes nem depois
quando me vi picado
por teu incontrolável desejo.

Arder em ti,
ferver de amor.

30.4.16

mistério

aceitar o
cosmo e seu
mistério.

o quão duro
é passar
pela paixão
em distâncias
de intenso
e incerto
profundo
amar?
sinto as
rosas do tempo
em fogo
sob o desejo
de meu corpo
ao mar.

tatuei em
mim
o mistério
do mundo
e as cicatrizes
do cosmos
são nítidas
e inesperadas.

as ondas
se recordam
do infinito.
o amor
amadurecido
rebenta
do mistério
que nada
compreendo.

violento querer e
a distância
que sufoca.

maturidade,
filha
do mistério.

nadar

há um
atlântico
entre nós

sim, eu vou
a nado
se

os amigos
deixarem
eu vou, eu vou!!

amigos, amigas
eu vou,
eu vou.

que serei
eu,
sem vocês…

sem tu,
meu atlântico,
sem tu.
nado braçadas
em lágrimas,
é amor.

não posso
esquecer
do mar

das ondas,
do cheiro
do sal.

cabelo ao vento
pele ensemble,
feito nu.

só ouso pensar
teu nome,
juro.

o atlântico
vasto
mar, oceano.

sinto
teu infinito
ser.

nadar
é o que
me resta.

15.4.16

Trecho de um diário em fevereiro

Queimo no céu de fevereiro o amor eterno que exalo. Cada instante, cada pedaço da concretude, cada cheiro, cada gosto, cada vislumbre é vivido intensamente. Bem melhor dissolver-se no céu a encolher-se na terra. O amor é caminho da eternidade. Se um dia voltarmos ao cosmos, será pela espaçonave do amor. Passos tranquilos na calçada, o lugar é o aqui e o tempo é o agora. Abraçar a experimentação, me vejo não sendo o que sou - situar-se mais além do óbvio. Interrogação que assumo enquanto farol dos meus dias, assim tão paradoxalmente. Apenas - apenas? - levar-se por novas trilhas que o sentimento instantes atrás atiçava. Reverenciar o que se faz, sem pressa. Enquanto o azul do mar esfrega nos corpos celestes a derradeira vitória do amor.

7.4.16

Barabel

Barabel
pra tu
meu sorriso
e no céu
sempre um caju.

***

No peito
um mar
perfeito
de amar:
pra Barabel
um beiju
com mel
de caju.

16.3.16

rascunho de palavras para um nome de ben

...
mel
céu
beleléu
anel
tonel
véu
créu
...

codinome de amor
mulheres de ben
desatina melodias
minha cabeça é tua
canções irresistíveis
te quis Barabel
coração bate tu... tum!

8.3.16

o amor pode esperar

como se o
amor
fosse o acumular
de mil poesias,
de um milhão
de palavras,
de dez mil vozes
interiores
que, em infinito
repisar,
diziam:
- sempre vale
o esperar.

18.2.16

Mistério IV

Clamo
       por
               tranquilidade

E ela está
         tão aqui
    em meu
                    peito

          Como poderia esquecê-la?

Escreva, escreva, escreva... Aqui, tão!

11.2.16

Amar

Amar é uma arte.
Não se nasce
sabendo amar;
tem-se o potencial.
Como arte, aprende-se
a amar.
Amando-se tem-se
uma tela e um pincel,
mas quanto sabemos
pintar quanto amar?
Amar é maturidade,
apesar de não ter idade.
Amar é delicadesa,
visto ser encontro
de mundos distintos.
Amar é paixão é sexo;
porém, não é só isso,
e só se faz
além disso.
Amar vem de si:
quem não se ama
não ama.
Não é preciso esperar
o amor
para amar.
Assim desejo
que o amor
transborde!

27.1.16

Tarde infinda

 O céu em fogo e o azul tomava a cabeça. Horas de fim em desaguar de estrondos. Das águas o sal que enriquecia a espiral da tranquilidade - amar era o círculo e o aqui-agora bastavam. Miligramas de herança cósmica impulsionavam o rebento do nada, reintroduzido a cada instante de êxtase. Olhar era só mirar dentro de si e, por fim, encontrar o universo e sua magia. Fundir-se já era sentir. Enquanto tudo acontecia, pouco se passava. E o conjunto de águas se fazia em inúmeros saltar, que o testemunhar agradecia. A graça do alaranjar impactava desde o mínimo detalhe até toda extensão do momento.