6.12.14

danças

danças
em pés flamejantes:
a cabeça gira, 
o corpo treme, 
a alma rebenta.

em nós: 
horizontes banidos
de corpos bandidos.

5.12.14

sonho velho

sonhos insones:
chegava aos sessenta anos
em forma,
natação diária em
longas distâncias.
mudava a forma,
assumia a alma,
me travestia.
era, então
- a velhice em forma,
em nova forma -,
a coroação de novos tempos:
atravessava o canal da mancha,
horas e horas de braçadas e braçadas e braçadas;
completava a façanha
e, ao final,
caía nos braços da amada.
eu era a travesti-lésbica-sessentona
que nada...

27.11.14

Lua

O que seria da Terra
sem a Lua?

Uma tremenda
vibração negativa.

Sinta a Lua Nova
e seu terrível efeito!

Será ausência ou
da Lua influência?

Depois de uma noite
muito conversar
com Mar e Lua
fui convencido:

A Terra está perdida.
Oh, Lua Cheia, nos salve!

25.11.14

Gozo

irrompe no silêncio
da noite morna
o inesperado gemido

ahhmmmm!!!

gozo contido
prazer liberto
ou amor fingido?

SILÊNCIO

do seco gemido
a noite arde
em desejo tímido

SILÊNCIO

como pode ser contida
a rotina da libido
que um simples gozo
a mente inflama?

24.11.14

haikai de domingo

após a chuva
vazio na rua
eu e a viúva

karaokê

domingo à noite
canto, canto, canto
sem saber toda letra
com muito refrão
e muita vontade
toda felicidade daquelas músicas
que batem lá no coração
bem batido
de dar prazer sem tamanho
canto no domingo à noite
- um karaokê urgente!

30.9.14

LEVEZA DA MEMÓRIA

"Quando a memória transformada em ave <br>Pousar sobre o meu peito a sua leveza. <br> [Hilda Hilst]

Exercício para reencontro

Estilhaçado Eu, dos cacos renascer.

Bela manhã primaveril,
boas vindas ao fresco amanhecer.

Poesia olvidada, negligenciada a simplicidade;
agora é tempo do belo reencontro.

Em acéfala rotina, robotizado eu.
Horizonte reaberto, recolorida paisagem.

Todo esse o sentido: fortalecer.

9.9.14

Nono Mês

Se tem amor
Se tem calor
SETEMBRO

É quando deliro
no ardente assombro
de tua espera:
PRIMA VERA.

13.8.14

Primeiro aniversário!

Um ano de
um meio pra mim,
meio de me integrar
em um meio
de intensa poesia...

Meio aventura,
meio deleite,
uma plenitude!!!

Que a experimentação subjetiva
continue fervilhante nesse meio
eletrônico-poético!!!

Não-Lugar

Janela escancarada,
cidade que pulsa,
é noite em Vitória.

Escrevo de um não-lugar.
O quarto de um hotel velho.

Lá embaixo,
piscina vazia
- possibilidade não realizada
de mil diversões.

Não quero,
não procuro,
não anseio
por coisa
qualquer.

Os prédios,
a movimentada avenida,
o morro de pedra,
estão todos ali.

E eu
aqui.

Nos vemos
e deles
nada reclamo.

Sozinho
nesta noite de lua cheia,
- infelizmente não a vejo
da escancarada janela,
em cujo peitoril escrevo -
a música e o livro
são única companhia.

Não bebo,
não fumo,
não vejo tv.
Nada em mim
quer fugir.

Um amor
não me falta.
Se o amor
agora chegasse,
eu amaria.
Se não chegasse,
eu também amaria.

Debruçado
sobre o peitoril
da janela do quarto andar
tão-somente sou
o aqui
o agora
o instante
em si mesmo.

Densa cidade
de milhares
de homens
e mulheres,
noite amena:
nada me assusta,
incrivelmente
nada me perturba.

Estrelas em céu azul escuro;
um sorriso e uma respiração profunda.

3.8.14

Minério

entre teus atos
de inquirir contra
minhas impropriedades
eu vejo a esperança
a cura é prospera
por um triz
pois já não sabe
o que pedir
- laranja murcha.
no coração
do minério tens
 o dom de parar
a máquina - mas
sou eu quem grunhe
perante à robótica
de ensandecidos
louros - e sonhas...
seremos só migalhas!

1.8.14

(Sem)Mente

A mente
mente.

Despeço-me
de julho
com orgulho.

Sabiamente
descobri
que sem
a mente
surge
a semente.

Meditai!

31.7.14

Dois anos de diário

Dois anos de diário. Dois anos de escrita companheira de meu cotidiano. Dois anos de uma experiência muito bacana.

Uma experiência que se transformou intensamente nesse período. O jeito, o teor, a periodicidade, a emotividade, diversas dimensões da escrita que se metamorfosearam. Nada de linearidade, não houve uma "evolução" no diário. Houve, sim, a mais errática experiência. Com certeza me conheço mais. Também sei que tenho muito mais mistérios.

Há mais ou menos um ano atrás eu descobria os diários de Anaïs Nin. Fiquei fascinado. Percebi a potência da experiência do diário. De grande efeito pessoal. E literário (grandíssimo, no caso de Anaïs).

Mas a potência literária do diário coloca uma sensível questão sobre o público e o privado nessa escrita toda. Não pretendo que meu diário seja público. Não escrevo pensando nisso. Portanto, minha experiência perde em potência?

Até agora acredito que não. A escrita de um diário é de extrema reviravolta no mundo subjetivo. Esses dois anos me mostram isso. Não há como passar incólume por tudo isso. Tal experiência marca meu mais profundo sentido de existir neste mundo.

29.7.14

O maior prazer em vida

a literatura é o maior prazer em vida. tal qual o sexo. se o orgasmo é o prazer concentrado, a leitura é o diluído prazer ...

27.7.14

latino-américa

esparramada em canto
olha-me
me quer?
ao canto
estás a fitar
eu... encabulo-me
é só olhar
e boca e curvas
a luz é generosa
sombreia teu desejo
digo que me queres
junto, bem junto
e sorriso é canto
de boca
abre-se... de lado a lado
estou contigo
dança... cumbia, salsa
te sigo.
ecuador, colombia e venezuela
ah, bolivar... que chévere!!!
amo-te em infinito
latino-américa!!!

26.7.14

Órion

Árido planeta
banhado pelas águas púrpuras
de ensandecidos
cavalos - que descem montanhas
a milhares de milhas por hora.

O céu desceu à terra
é tudo tão azul em Órion
e a vista é úmida e límpida.

Adentra minha visão
o cheiro dos cavalos trôpegos
depois de um banho de mar.

A textura cinza de suas peles,
com pelos curtos e escovados
por brisas de infinitos desfiladeiros,
desafia minha memória.

Os cavalos de Órion
são a neblina do riacho
onde matam a sede
de mil gerações.

Cavalos de Órion,
que pude montar em
sonhos púrpuras e impregnados
do calor da areia do deserto
(o mais extenso de teus sonhos,
lembra?),
inquietam minha visão.

Deitado na floresta
sob teu corpo
contemplo nuvens,
a copa de uma árvore
com quase três mil anos de vida
e um pássaro
verde, azul e cinza
a me observar.

O olho do pássaro me diz
que nuvens são curvas
de teu corpo.

O olho do pássaro
é teu olho
a irradiar sabores
da fruta que exala
nosso último beijo.

25.7.14

Coração do Meio

Eu tenho um girassol
em meu centro.

O girassol é o
coração do meio.

O meio de onde
tudo se expande.

Girassol florido, exuberante,
exalo a fragrância
do amor e da paixão.

Cresce, girassol, cresce!
e semeia no mundo
a entusiasmante alegria.

O brilho que irradio
vem da serenidade
com a qual cultivo
o meu girassol.

Meu coração do meio
é o meio do sol.

22.7.14

conta!

contar o que te encanta
em conto que não se conta.

quem canta, em canto,
talvez diga o quanto
o corpo se encanta.

no canto, me conta!!

índigo firmamento

azul denso,
é céu
de julho.

no  intenso
infinito,
o mergulho.

anil imenso,
em visão
o vasculho.

14.7.14

Embaraço

À tua briga
eu sou solidário.
na praia
nada passa.

um simples
passar
é existir
e dizer
a tu:
somos todos
iguais!

me abraça
homem de tudo
seremos nada
a nadar
no nectar
de amor!!!!!!

senti
o frio de teu cajado...
esquenta-o, homem...
e diga-me o que quer
assim tão simples.

3.7.14

O significado da impecabilidade

"Contei-lhe como foi que Don Juan me fez compreender o que significava a impecabilidade. Ele e eu estávamos caminhando um dia numa ravina muito profunda quando uma pedra imensa soltou-se da parede rochosa e caiu no fundo da garganta, com uma força formidável, a uns vinte ou trinta metros de onde estávamos. O tamanho da pedra tornou sua queda uma coisa muito impressionante. Dom Juan aproveitou a oportunidade para dar uma lição teatral. Disse que a força que governa os nossos destinos está fora de nós e não tem nada a ver com as nossas ações ou vontade. Às vezes essa força podia determinar que parássemos de caminhar e nos abaixar para amarrar os cordões dos sapatos, como eu acabara de fazer. E, fazendo-nos parar, com aquela força nos fizera ganhar um momento precioso. Se tivéssemos continuado a andar, aquela pedra imensa certamente nos teria esmagado e morto. Um outro dia, porém, em outra ravina, a mesma força determinante podia tornar a fazer-nos parara para nos abaixar e amarrar os cordões dos sapatos, enquanto outra pedra se soltaria exatamente acima do lugar em que nos encontrássemos. Fazendo-nos parar, aquela força nos teria feito perder um momento precioso. Naquela segunda ocasião, se continuássemos a andar, teríamos sido salvos. Dom Juan disse que que, diante de minha falta total de controle sobre as forças que decidem o meu destino, a minha única liberdade possível naquela ravina consistia em amarrar os cordões de meus sapatos de modo impecável."

[Carlos Castañeda, in "O segundo círculo do poder"]

16.6.14

Pôr das cores

Saio pro mar,
a cabeça finge que pensa.

Grãos de areia conservam o tempo.

Por um pequeno buraco
no céu
o azul se desfaz.

Surge sorrindo o alaranjado
- sorriso só de lábios e bochechas.

Pra fechar o buraco
do céu,
estrelas de unir pontos.

E deixar mais escuro
o tampo da cabeça.

11.6.14

Escrita

O papel influencia a escrita.
A caneta modifica a escrita.
A experiência marca a escrita.
O amor atravessa a escrita.
A descrição acredita a escrita.
A iluminação altera a escrita.

A escrita faz um mundo ser o delírio.
Tudo não existe, só a escrita.

10.6.14

eu tive um sonho.

esquemas
violências dadas
eu quero
tu?
da música,
violência teatral,
aqueles que querem
só somar
e pouco multiplicar
rompem o limite!
ama como um adeus...
vem em cama
branca neve
de precipícios
do que nunca sabe.
encampa, o tesão
abre a questão
sobre o nectar
doce, amargo e quente,
é isso?
é mais que isso?
pode ser tudo?
vislumbro o forte
compasso do porvir,
não toco;
sente; pergunta; quer.
a leitura
é o que pode ser?
talvez. não diz.
sente. sente. sente.
entrementes, quer.
mas é de quem?
ah, a propriedade...
pode ser,
aquém do vislumbre
há o desejo.

2.6.14

Última poesia de um diário

Estou precisando amar loucamente.
                              Loucamente
                                        Loucamente
     Até perder o sentido do mundo.
                   Ah, que amor louco
                                e inconsequente!

Amarei,
                       amarei,
                                          Amarei

Ficarei doido por todos os teus
                                  pequenos defeitos.
(só os pequenos, principalmente os pequenos)

Aquele torto de um dente
que quase não vemos,
mas, quando o percebemos,
sente-se o "único" do verdadeiro amor.

Repara no amor,
                              repara!

Repare,
        Sente,
                Pra não cair de paixão...

Te digo: me ame!
                          Inconsequente
              no fundo dos olhos
                     beijo
                                  Um sorriso: eu amo!

Predileção de um guerreiro

"O sol já ia se pôr. O colorido laranja-claro nas montanhas distantes ao Norte se tornara mais escuro. A paisagem me dava a impressão de um mundo solitário e varrido pelo vento.
— Vocês já aprenderam que a espinha dorsal de um guerreiro é ser humilde e eficiente — disse Dom Genaro, e sua voz me provocou um sobressalto. — Aprenderam a agir sem nada esperar por recompensa. Agora eu, lhes digo que, a fim de suportar o que têm pela frente além deste dia, vocês precisarão de toda a paciência possível.
Senti um choque no estômago, Pablito começou a tremer.
— Um guerreiro tem de estar sempre preparado — continuou ele. — O destino de todos nós aqui tem sido saber que somos prisioneiros do poder. Ninguém sabe por que nós em especial, mas que grande sorte!
Dom Genaro parou de falar e abaixou a cabeça, como se estivesse exausto. Era a primeira vez que eu o ouvia falar nesses termos.
— Aqui é obrigação de todos os guerreiros se despedirem dos presentes e de todos os que deixam para trás — disse Dom Juan, de repente. — Eles devem fazer isso em suas próprias palavras e em voz alta para que sua voz permaneça aqui para sempre, neste lugar de poder.
A voz de Dom Juan trouxe uma nova dimensão ao meu estado de ser naquele momento. Nossa conversa no carro tornou-se ainda mais pungente. Como ele tinha razão ao dizer que a serenidade da paisagem em volta de nós era apenas uma miragem e que a explicação dos feiticeiros desfechava um golpe que ninguém podia revidar. Eu ouvira a explicação dos feiticeiros e experimentara suas premissas; e lá estava eu, mais despido e mais indefeso do que nunca em toda a minha vida. Nada do que eu jamais fizera, nada do que imaginara podia sequer comparar-se à angústia e à solidão daquele momento. A explicação dos feiticeiros me destituíra até de minha razão. Dom Juan podia realmente dizer que um guerreiro não podia evitar a dor e a tristeza, mas apenas o entregar-se a isso. Naquele momento minha tristeza era incontrolável. Eu não podia suportar despedir-me daqueles que tinham partilhado comigo as reviravoltas de meu destino. Eu disse a Dom Juan e Dom Genaro que fizera um pacto com alguém para morrer junto com o outro e que o meu espírito não suportava a idéia de partir sozinho.
— Estamos todos sozinhos, Carlitos — disse Dom Genaro baixinho. — É o nosso estado.
Senti em minha garganta a angústia de minha paixão pela vida e por aqueles que me eram caros; eu me recusava a despedir-me deles
— Estamos sós — disse Dom Juan. — Mas morrer sozinho não é morrer em solidão.
A voz dele parecia abafada e seca, como se estivesse tossindo.
(...)
— Um guerreiro reconhece sua dor, mas não se entrega a ela — disse Dom Juan, — Assim, o estado de espírito do guerreiro que penetra no desconhecido não é de tristeza; pelo contrário, ele está alegre porque se sente humilhado diante de sua grande boa sorte, confiante que seu espírito é impecável e, acima de tudo, plenamente consciente de sua eficiência. A alegria de um guerreiro vem de ter aceitado seu destino, e de ter avaliado lealmente o que o espera.
(...)
— Nós nos divertimos e rimos enquanto esperávamos, tal como recomendou a testemunha — disse Dom Genaro, de repente, — Mas é uma condição natural da ordem que ela sempre chegue ao fim.
Ele olhou para o céu.
— Está quase na hora de debandarmos como os guerreiros da história — disse ele. — Mas antes de seguirmos nossos caminhos diversos, tenho de dizer-lhes uma última coisa. Vou revelar-lhes um segredo do guerreiro. Talvez se possa chamá-lo de predileção de um guerreiro.
Ele se dirigiu a mim em particular e disse que uma vez eu lhe dissera que a vida de um guerreiro era fria e solitária e sem sentimentos. Acrescentou que até aquele momento preciso eu estava convencido de que era assim.
— A vida de um guerreiro não pode ser fria e solitária e sem sentimentos — disse ele — porque é baseada sobre a afeição, a sua dedicação, sua lealdade a seus queridos. E quem, você pode perguntar, é o seu querido? Vou mostrar-lhe agora.
Dom Genaro levantou-se e andou devagar para um lugar completamente plano diante de nós, a uns três metros de distância. Ali fez um gesto estranho. Mexeu as mãos como se estivesse espanando terra do peito e da barriga. Aí aconteceu uma coisa esquisita. Um lampejo de luz quase imperceptível atravessou-o; vinha do chão e pareceu acender todo o corpo dele. Ele fez como que uma pirueta para trás, um mergulho para trás, a bem dizer, e caiu sobre o peito e os braços. Seu movimento fora executado com tal precisão e perícia que ele parecia um ser sem peso, uma criatura como um verme, que dera uma volta sobre si. Quando estava no chão, ele executou uma série de movimentos do outro mundo. Deslizou alguns centímetros acima do solo, ou rolou sobre ele como se estivesse deitado sobre rolamentos; ou nadou descrevendo círculos e voltando com a rapidez e agilidade de uma enguia no mar.
Meus olhos começaram a envesgar em certo momento e aí, sem qualquer transição, eu estava vendo uma bola de luminosidade deslizando de um lado para outro sobre algo que parecia ser o chão de um ringue de patinação no gelo com mil luzes brilhando sobre ele.
O espetáculo era sublime. Aí a bola de fogo parou e ficou imóvel. Uma voz sacudiu-me e distraiu minha atenção. Era Dom Juan falando. A princípio não entendi o que ele estava dizendo. Tornei a olhar para a bola de fogo; distingui Dom Genaro deitado no chão com os braços e as pernas estirados.
A voz de Dom Juan era muito clara. Pareceu engatilhar alguma coisa em mim e comecei a escrever.
— O amor de Genaro é o mundo — disse ele. — Agora mesmo ele estava abraçando esta terra enorme, mas, como ele é tão pequeno, o mais que pode fazer é nadar nela. Mas a terra sabe que Genaro a ama e dedica-lhe seus cuidados. É por isso que a vida de Genaro é cheia até a borda e seu estado, esteja onde estiver, será da fartura, Genaro percorre os caminhos de seu amor e, onde quer que esteja, é completo.
Dom Juan estava agachado em nossa frente. Ele afagava a terra, com delicadeza.
— Esta é a predileção de dois guerreiros — disse ele. — Esta terra, este mundo. Para um guerreiro, não pode haver amor maior.
Dom Genaro levantou-se e agachou-se ao lado de Dom Juan um momento, enquanto os dois nos olhavam fixamente, e depois, ao mesmo tempo, sentaram-se de pernas cruzadas.
— Somente se a pessoa ama esta terra com uma paixão constante é que pode deixar sua tristeza — disse Dom Juan, — Um guerreiro é sempre alegre porque seu amor é inalterável e sua amada, a terra, o abraça e lhe concede dádivas inconcebíveis. A tristeza pertence apenas àqueles que detestam aquilo mesmo que abriga seus seres.
Dom Juan afagou a terra com carinho.
— Este lindo ser, que é vivo até suas profundezas e compreende todos os sentimentos, aliviou-me, curou-me de minhas dores e por fim, quando finalmente compreendi o meu amor por ela, ensinou-me a liberdade.
(...)
Ele repetiu uma história que eu lhe contei uma vez sobre um homem de 72 anos que reclamava porque sua vida fora tão curta que lhe parecia que ainda na véspera ele era menino. O homem me dissera: 'Lembro-me do pijama que eu usava quando tinha 10 anos. Parece que só se passou um dia. Aonde foi o tempo?'
— O antídoto que mata esse veneno está aqui — disse Dom Juan, afagando a terra. — A explicação dos feiticeiros não pôde de todo libertar o espírito. Vocês dois, por exemplo, alcançaram a explicação dos feiticeiros, mas não faz diferença que vocês a conheçam. Estão mais sozinhos do que nunca, porque sem um amor constante pelo ser que lhes dá abrigo, estar sozinho é a solidão. Somente o amor por este ser esplendoroso pode dar a liberdade ao espírito do guerreiro; e a liberdade é a alegria, eficiência, e a renúncia diante de qualquer dificuldade. Esta é a última lição. Fica sempre para o último momento, o momento de solidão final em que o homem enfrenta sua morte e sua solidão. Só então é que faz sentido."

[Carlos Castañeda, in "Porta para o Infinito"]

27.5.14

impecável

ando
corro
chego
voo
plaino
aterriso
decolo
derivo
equaciono
amo
falo
palestro
esquento
esfrio
dedico
oblitero
vou
não sei se volto
volto
fico
estaciono
deixo
pego
amplio
estico
cochilo
brigo (?)
viro
danço
cozinho
amparo
tento
nunca
desisto
queimo
quero

nada penso.

11.5.14

canceriano sem lar

nas tardes de frio
- um frio ameno,
de domingo -
eu sinto os ares
de outras cidades
- o cerrado de brasólea,
o concreto de sampa,
as dunas de floripa,
o gelo de poá,
as ladeiras de beagá... -
e, ao mesmo (cósmico) tempo,
me sinto tão em casa!

(ah, raul,
eis o canceriano sem lar!)

1.5.14

Destino, Mistério.

Entreguei-me ao Destino
e só observo.

Tento descobrir
o que acontecerá.
Não é adivinhação;
é leitura de sinais.

Uma folha que
cai.
Um vento leve que
passa.
Um calafrio que
atravessa.

Agora, o mundo é
mais delicado.
Eu sou mais o mundo
e menos eu.

Assim é abraçar
e se entregar
ao Mistério.

29.4.14

Não fazer


"- Já lhe disse que o segredo de um corpo forte não está no que você faz com ele, mas no que não lhe faz - falou, por fim.  Agora, chegou a hora de você não fazer o que faz sempre. Fique aqui sentado até partirmos e não faça.
- Não estou entendendo, Dom Juan.
Pôs as mãos sobre meus apontamentos e os tirou de mim. Cuidadosamente, fechou as páginas de meu caderno, prendeu-o com seu elástico e depois atirou-o como um disco dentro do chaparral.
Fiquei chocado e comecei a protestar, mas ele tapou minha boca com a mão. Apontou para um arbusto grande e disse-me que fixasse a atenção não nas folhas, mas nas sombras das folhas. Disse que correr no escuro não precisava de ser provocado pelo temor, e podia ser uma reação muito natural de um corpo jubilante que sabia o que não fazer. Ficou repetindo em meu ouvido direito que não fazer o que eu sabia como fazer era a chave do poder. No caso de olhar para uma árvore, o que eu sabia como fazer era focalizar imediatamente a folhagem. As sombras das folhas ou os espaços entre as folhas nunca me ocupavam. Suas últimas advertências foram para começar a focalizar as sombras das folhas de um único galho e depois, aos poucos, passar a toda a árvore e não deixar que meus olhos voltassem para as folhas, pois o primeiro passo propositado para armazenar o poder pessoal era permitir ao corpo não fazer.
Talvez fosse devido à minha fadiga ou excitação nervosa, mas fiquei tão absorto nas sombras das folhas que, quando Dom Juan se levantou, eu conseguia quase agrupar as massas escuras de folhagens tão bem como eu normalmente agrupava a folhagem. O efeito geral era espantoso. Eu disse a Dom Juan que gostaria de me demorar mais. Ele riu e deu um tapinha em meu chapéu.
- Já lhe disse - falou ele. - O corpo gosta de coisas como esta.
Depois, explicou que eu devia deixar que meu poder armazenado me guiasse pelas moitas até meu caderno. Empurrou-me delicadamente para o chaparral. Andei a esmo por um momento e depois encontrei-o. Pensei que, subconscientemente, eu devia estar lembrado da direção em que Dom Juan o atirara. Esclareceu o fato, dizendo que eu fora diretamente ao caderno porque meu corpo estivera mergulhado durante horas em não fazer."

[Carlos Castañeda, in "Viagem a Ixtlan"]

A poesia e o tempo

A poesia é o pleno acesso ao tempo livre. A poesia é a essência do tempo livre, em seu estado maravilhado. A poesia multiplica o tempo livre, até ele deixar de ser "tempo". A poesia dissolve tudo em maravilha e mistério. A poesia é o Nada; o estupendo Nada.

22.4.14

Intuições sobre o amor

Não, o amor não é um um jogo de expectativas. Como se amar fosse corresponder correta e exatamente às expectativas do outro.
Não, amar é o respeito ao desejo. É  uma tarefa individual, não é um jogo, é livre de expectativas.
O amor - assim como a vida - se faz, plenamente, no respeito supremo ao silêncio absoluto.

18.4.14

Advertências do amor

"Sorria, você está sendo amado!"

#

"Quem ama vai pra cama."

#

"Se amar, não titubeie: ame!"

#

"Quem ama seus males espanta."

17.4.14

nordeste

mais próximo ao equador,
amar tem um xero
que não é só cheiro:
é paixão da fruta morena...

12.4.14

Ser inacessível

"A arte do caçador é tornar-se inacessível.
(…)
Ser inacessível significa que você toca o mundo que o cerca moderadamente. Não come cinco codornas; come uma. Não danifica as plantas só para fazer uma churrasqueira. Não se expõe ao vento, a não ser que seja imprescindível. Não utiliza e espreme as pessoas até elas mirrarem e sumirem, especialmente aquelas que você ama.
(…)
Não estar disponível significa que você propositadamente evita esgotar-se a si e aos outros. Significa que você não está faminto nem desesperado, como o pobre filho da mãe que acha que nunca mais vai comer na vida e então devora toda a comida que pode, todas as cinco codornas!
(...)
Um caçador sabe que atrairá a caça várias vezes para sua armadilha, de modo que não se preocupa. Preocupar-se é tornar-se acessível sem o saber. E depois que você se preocupa, agarra-se a qualquer coisa, em desespero; e uma vez que você se agarra, é provável que se esgote ou esgote a quem ou o que você estiver agarrando.
(...)
Já lhe disse que ser inacessível não significa esconder-se, nem ser misterioso. Não significa tampouco que você não possa lidar com as pessoas. Um caçador usa seu mundo com parcimônia e ternura, sem considerar se o mundo é de coisas, plantas, animais, pessoas ou poder. Um caçador trata intimamente com seu mundo e, no entanto, é inacessível a esse mesmo mundo.
(...)
Você não entendeu. Ele está inacessível porque não está espremendo o mundo até este perder a forma. Ele o toca de leve, fica o tempo que precisa, e depois passa adiante rapidamente, quase sem deixar marca."

[Carlos Castañeda, in "Viagem a Ixtlan"]

Janela de hotel

Da janela do sexto andar eu vejo escrito no grande morro de pedra: "LEIA O LIVRO UNIVERSO EM DESENCANTO".

esporte diário

meu esporte:
escrever o diário.
que prazerosa ginástica!
algumas centenas de páginas
e adquiri lembranças musculosas.
de quebra, ganho uma terapia.
ah, essa maratona da escrita sem fim,
sem campeão ou perdedor:
diário, meu esporte amador,
sou profissional dos meus registros.

9.4.14

amor

joia única,
lapidada em tempo imemorial
e apresentada 
pelos deuses
na forma palavra:
"amor".

Alien(ação)

Acelerado,
desapercebe o fragor
de uma tarde outonal.

Insensível,
faz perder-se o humano
e silenciar o animal interior.

Vida insensata
do eterno reproduzir,
sem sentir o calor
do coração.

É frio,
se me aniquilo
na pressa
de uma tarde qualquer.

2.4.14

delírio a zumbizar

ilustração por Beta Aragão Lopes
eu sou a mosca
que declama poesias
em seu ouvido.

eu não perturbo
o seu sono...
eu incendeio
os seus sonhos!

às moscas

de boca fechada
a mosca não come.

de olhos fechados
a mosca não voa.
(mas eu voo!)

de noites sonhadas
eu sou a mosca.

de cabeça feita
eu falo com a mosca.

de asas de mosca
eu pulo o carnaval.

de boca aberta
você come mosca.

30.3.14

saudade marítima


semana
ausente da maresia
distante do ondular das águas
carente de oceanos

volto
correndo em alma
pra imensidão
de toda a água

há mar
amo
ao mar
amar

25.3.14

Um guerreiro procura parar de falar consigo

"— Você pensa e fala demais. Deve parar de falar sozinho.
— O que quer dizer?
— Você fala sozinho demais. Não é só você que faz isso. Nós todos o fazemos. Temos conversas internas. Pense nisso. Sempre que está só, o que você faz?
— Converso comigo mesmo.
— Sobre o que conversa consigo?
— Não sei; sobre qualquer coisa, imagino.
— Vou-lhe dizer a respeito de que conversamos conosco. Conversamos sobre nosso mundo. Na verdade, conservamos nosso mundo com nossas conversas internas.
— Como o fazemos?
— Sempre que terminamos de falar conosco, o mundo está sempre como devia ser. Nós o renovamos, o animamos com vida, o mantemos com nossa conversa interna. Não só isso, mas nós também escolhemos nossos caminhos, ao conversarmos conosco. Assim, repetimos as mesmas escolhas várias vezes até o dia de nossa morte, pois ficamos repetindo a mesma conversa interna toda vida, até morrermos. Um guerreiro sabe disso e procura parar de falar. Esse é o último item que você tem de aprender, se quiser viver como guerreiro.
— Como posso deixar de conversar comigo mesmo?
— Antes de tudo, tem de usar os ouvidos para aliviarem um pouco a carga de seus olhos. Usamos os olhos para julgar o mundo desde o dia em que nascemos. Falamos com os outros e conosco, sobretudo sobre o que vemos. Um guerreiro sabe disso e escuta o mundo; escuta os sons do mundo.
Guardei minhas notas. Dom Juan riu e disse que não queria que eu fizesse uma coisa forçada, que escutar os sons do mundo tinha de ser feito harmoniosamente e com muita paciência.
— Um guerreiro sabe o que o mundo se modificará assim que ele parar de conversar consigo — disse ele — e deve estar preparado para esse abalo monumental.
— O que quer dizer, Dom Juan?
— O mundo é assim e assado, e tal e tal, só porque nos dizemos que é dessa maneira. Se pararmos de nos dizer que o mundo é tal e tal, o mundo deixará de ser tal e tal. Neste momento, não creio que você esteja pronto para esse golpe monumental, e, portanto, deve começar lentamente a desfazer o mundo.
— Não o compreendo mesmo!
— Seu problema é que confunde o mundo com o que as pessoas fazem. Ainda nisso, não é o único. Todos nós fazemos isso. As coisas que as pessoas fazem são os escudos contra as forças que nos cercam; o que fazem como pessoas nos dá conforto e nos faz sentir seguros; o que as pessoas fazem é muito importante em si, mas apenas como escudo. Nunca aprendemos que as coisas que fazemos como pessoas são apenas escudos e deixamos que elas dominem e transtornem nossas vidas. Na verdade, eu diria que, para a humanidade, aquilo que as pessoas fazem é maior e mais importante do que o próprio mundo.
— O que é que você chama de mundo?
— O mundo é tudo o que está encerrado aqui — disse ele, pisando com força no chão. — A vida, a morte, pessoas, aliados, e tudo o mais que nos cerca. O mundo é incompreensível. Nunca o compreenderemos; nunca desvendaremos seus segredos. Assim temos de tratá-lo como ele é, um simples mistério!
'Mas o homem comum não faz isso. O mundo nunca é mistério para ele e, quando ele chega à velhice, está convencido de que não tem mais nada por que viver. Um velho não esgotou o mundo. Só esgotou o que as pessoas fazem. Mas, em sua estúpida confusão, acredita que o mundo não tem mais mistérios para ele. Que preço triste para pagar por nossos escudos!
'Um guerreiro sabe dessa confusão e aprende a tratar as coisas direito. As coisas que as pessoas fazem não podem, de jeito nenhum, ser mais importantes do que o mundo. E assim o guerreiro trata o mundo como um mistério infindável e o que as pessoas fazem como uma imensa loucura."

[Carlos Castañeda, trecho de "Uma estranha realidade"]

23.3.14

Escrito em casa de Maia

O sol alucina em brasa
quando a seca é ápice.
Hoje, a chuva envolveu
o planalto de azul infinito,
azul encoberto por encinzentadas nuvens.

(Nunca havia visto céu igual:
em sonhos poderia tê-lo vislumbrado?)

Imenso azul, ampla visão.
Chuvas intensas, despenca a amplidão.

Existe um mistério por entre,
sobre, através e antes
do que há de paisagem
no indizível e único cerrado
dessa irrepetível Brasília.

19.3.14

na Poesia

Coincidências?
Sim... Não... Sim... Não...
Sei lá! Quem Sabe?
Encontros em dimensão
desatarrachada
do Tempo e do Espaço,
da Coincidência e da Ausência:
na Poesia.

10.3.14

Simplicidade

Recebi
um presente:
a simplicidade.

O básico,
o que "é".
Até, sem mais.

Assusta
o simples,
pois somente "é".

O excesso
é o medo
do erro.

Complicar
pra dissimular
a exitação.

O caminho
é aquele
do coração.

Se a decisão
é aquela
do coração.

A escolha
é a escolha
após a escolha.

Simplicidade, bênção
dos meus últimos
tempos.

Agora,
meu exercício
diário.

A arte de ser
simples
é a suprema
criação
do humano
em meio
às criações
dos deuses.

* * *

E tudo começou a acontecer quando eu passei a acreditar no destino.

* * *

27.2.14

homem de sabedoria

o pássaro
no coqueiro
brisa, beira-mar
observo-o
conectado
do centro de meu abdômen
lhe dou uma missão
tento entender a minha
está no centro
sou fibras
tento compreender
dom juan

21.2.14

Palavras

As palavras me desafiam!
E elas significam tão desparatadamente.
O mundo vibra e as palavras, estáticas.
Elas me querem, me provocam, intentam
em vão não sei o que fazer.
Escrevo. Sem sucesso.
As imagens dizem mais.
Arco do Cemitério dos Inocentes, decorado à custa de Nicolas Flamel, Paris, in P. Arnold, Três Tratados de Filosofia, Paris, 1612.

20.2.14

Mamãe

Hoje chorei.
Chorei,
em frente ao mar,
em louvor a Mamãe.

Conversei, conversei,
escutei, muito mais,
tua beleza, Mamãe,
me encanta
por todos os cantos,
encontro uma deslumbrante
maravilha de segregos
no simples do teu
incompreensível.

Agradeço por tudo,
Mamãe,
por esta tarde
de sol, sal e mar
na qual te encontrei
- antes, me encontraste! -
em beleza pura.

A Lua
em nós,
Mamãe:
Chorei, chorei
por ti!

17.2.14

Iridescente

"Todas as recordações me voltaram de repente, e tudo ficou claro em minha mente. Virei-me para procurar Dom Juan, mas não conseguia distinguir nada nem ninguém. Eu só conseguia ver o cão ficando iridescente; uma luz intensa se irradiava de seu corpo. Torneia ver a água fluindo através dele, acendendo-o como a uma fogueira. Cheguei até à água, afundei meu rosto na panela e bebi com ele. Minhas mãos estavam diante de mim no chão e, enquanto eu bebia, vi o fluido correndo por minhas veias e criando tonalidades de vermelho, amarelo e verde. Bebi mais e mais. Bebi até estar todo em fogo; eu estava todo aceso. Bebi até que o liquido saiu de meu corpo por todos os poros, projetando-se para fora como fibras de seda, e eu também adquiri uma juba comprida, lustrosa e iridescente. Olhei para o cachorro e a juba dele era igual à minha. Uma felicidade suprema me encheu o corpo todo e corremos juntos para uma espécie de calor amarelo que vinha de algum lugar indefinido. E ali brincamos. Brincamos e lutamos até eu saber os desejos dele e ele saber os meus. Cada um manipulava o outro à maneira dos teatros de fantoches. E o fazia mexer as pernas quando torcia meus dedos dos pés e cada vez que ele batia a cabeça, eu sentia um desejo irresistível de saltar. Mas a maior travessura dele era fazer com que eu coçasse minha cabeça com o pé enquanto estava sentado, o que conseguia abanando as orelhas de um lado para outro. Isso para mim era inteira e insuportavelmente engraçado. Uma tal graça e ironia; tanto domínio, pensei. A euforia que se apossou de mim era indescritível. Eu ria até quase não poder respirar.

Tinha a sensação nítida de não conseguir abrir os olhos; eu estava olhando por um tanque de água. Era um estado longo e muito doloroso, cheio da ansiedade de não poder despertar, e no entanto de sentir-me acordado. Então, de repente, o mundo ficou claro e em foco. Meu campo de visão tornou-se novamente muito redondo e amplo, e com isso surgiu um ato consciente comum, que foi o de virar-me e procurar aquele ser maravilhoso. Nesse ponto, encontrei a transição mais difícil. A passagem de meu estado normal se dera quase sem eu sentir: eu tinha consciência; meus pensamentos e sentimentos eram um corolário dessa consciência; e a passagem foi clara e suave. Mas essa segunda modificação, o despertar para uma consciência clara e sóbria, foi verdadeiramente chocante. Eu tinha esquecido que era homem! A tristeza de uma situação tão irreconciliável foi tão intensa que eu chorei."

[Carlos Castañeda, in "The Teachings of Don Juan: A Yaqui Way of Knowledge"]

16.2.14

Cheia

A lua
A lua
A lua é cheia

Ela me preenche
Me faz vivo
Tudo vem dela

A lua
A lua
A lua é cheia

Ela me faz belo
Em seu mistério
Sou pleno

A lua
A lua
A lua é cheia

Em ti sou cheio
De amor em tudo
És linda

A lua
A lua
A lua é cheia

Eu danço por ti
Fera da noite
Tão doce delicadeza

A lua
A lua
A lua é cheia

Equilibra-me
Em teu esplendor
Me encanto

A lua
A lua
A lua é cheia

borboleta gigante azul

21/10/2013: Hoje eu estava voltando do almoço, pela rua, em meio a dúvidas sobre a vida. Dúvidas que me colocavam certas opções mais pessimistas para encarar essa vida. Dúvidas que se conformavam em uma polarização entre seguir o caminho positivo e propositado ou ir por aquele do sobreaviso, do receio, do que desconfia. No auge desse embate feroz sobre qual trilha seguir, o acontecimento: uma borboleta gigante azul passou por mim! Vindo por detrás, quase num rasante (não fosse seu voo aparentemente errático), ela surgiu no meu olhar com a resposta que eu precisava. Assim, simples, foi magia, a borboleta mágica. É claro que a vida é polo caminho da felicidade, do positivo, do belo! Meu dilema estava liquidado por uma “frágil” borboleta. Segui contente, renovado, remistificado. As borboletas gigantes azuis são seres místicos, nos dão a resolução para nossos dilemas.

13.2.14

Tarde

A brisa esfria
o mar é nascimento
dança a alma
cai o sol.
Nuvens ralas de beleza
lindas, permeiam-nos.
Ritmo lento, vibra a maresia:
a onda é vida
o limiar está no horizonte.
Tudo está aqui
o nada nos procura;
Beleza em detalhes
a fuga não é necessária,
reverbera o silêncio.
Moreno, brasa, calor
volúpia de viver,
abafa e queima.
É fim de tarde,
perdidos no sem-tempo.
Não passa, não passa:
A lua é calma
tem no céu a alma.

11.2.14

Pós-viagem [trecho diário]

De volta para casa. Intenso. Muito intenso. Tudo. Duas semanas. Tanta coisa acontecida. Não consigo escrever sobre tudo. Não sobra tempo. Calor. Insuportavelmente calor. Sampa. Salvador. Vitória. Brasília. Lembrarei de tudo? Sei lá. Vivi. Por onde começo? Hoje? Amanhã? Quando o frio chegar? Sei lá. Recordo com mais facilidade do que é recente. E o mais antigo? Seria mais fácil elaborar um lista. Do que fiz. E do que senti. Um lista. Simples. Aí eu não esqueceria. Marcaria tudo o que fiz. E senti. Recordaria tudo. Me pouparia do cansaço. Driblaria a preguiça e registraria tudo. Para escapar nada. Quem sabe eu faça isso. Não sei. Mas gosto de me arriscar nos projetos que podem ficar incompletos. Quero escrever tudo, repassar tudo. O tudo, diga-se, são as emoções. De agora. O que foi, foi. Não volta. As emoções vêm e vão. Hoje, ontem e amanhã. Quero escrevê-las. Há muito por detrás das palavras, que nelas não cabe. As palavras são pequenas. As emoções são sem fim. Eu sou dilemas. Bons dilemas. Gostosos dilemas. Escrevo. Vivo. Intensamente. 

8.2.14

terra

tu provocas ardência
em meu corpo
sinto o fel da terra
tua boca
em êxtase
teus lábios
nos meus...
sabes amar.

5.2.14

Não eu

Havia linhas à minha frente.
Não as enxergava;
agora as enxergo.
Desacreditava-as.
Acreditava que eram por mim,
só por mim
eu iria em frente.
Não sou eu. É não eu.
Compreendi.
Deixei de compreender
e aí fui.
Por inúmeras direções,
além do ir em frente.
Não pensamentos,
assim sigo,
sem mim.

1.2.14

poema sujo

na noite suja
eu escuto idiomas
e fumaças
intensidades
o gesto é breve, o que quer?
a música flui, intensa.
o espanhol é rápido. carajo!
os golpes existem.
dançar, dançar, dançar.
esplendor, amo tudo!!
generosidade, é festa!!
por favor,
venha, se achegue, dance!!!
ah, esse calor do nordeste...

25.1.14

Meu mundo de ponta cabeça

Nenhuma Coincidência é por acaso.
- Seja bem-vindo!
- Gostei muito de vocês,
sinto-me em casa,
voando, planando.
Mágica, simples,
toda Magia,
o Saber Indiciário.
Meus magos, meus gurus,
estou completo!
O saber do Universo.
Em casa, planando,
os saberes estão por aí.
Entram e saem
pelo canto dos olhos.
E o que é a Natureza?
E o que é o Imaginário?
Agradeço por toda a Sensibilidade
que me foi dada.
Agradeço. Não há o que temer.
Viver. Viver o Segredo.
Sonhar. Sempre mais fundo,
como uma Mulher.
Com o Tempo, o que se abre,
cada vez melhor, com o Tempo...
E surge o Novo. Colorido.
Sem desculpas.
Infinito Colorido. E o Novo. 

 

Uma sensação por outra

    Contra o que eu tento lutar?
  A cor do papel é iluminada
     Vejo pelos cantos, sombras
 Me dizem encontros
         "Se entrega, meu bem!"
   Sorrateiramente...
             Procurando meu estilo
   O que sobra afinal?
        Excertos, puros excertos
    Excêntricos
             Luzes
                     Aparições
    Tudo tão luminoso
                     E perigoso
       O gozo
                   Agora vem a melhor parte
  Que cheiro bom!
                   Coloquei pra fora
   Gargalhadas  Gargalhadas  Gargalhadas

Cem cessar

Onde tudo isso vai parar?
Me diga, aonde vai?

Caio dentro de mim
e me descubro
cada vez mais.

Me descubro,
o cobertor sufoca,
o pensamento não para.

Quero mais
de mim mesmo.
Não há saída,
só entrada.

Um sufoco e uma alegria,
passo por tudo, amplio-me.

Em outros, sou tantos.
Desejo todos
para ser vários.

Quanto entusiasmo!
Não cessa.

Saio à noite,
o corpo fica, delira.
Vou, vou, encontro tantos
outros em mim.
Delírio, assim, viver...

(Aí eu não paro de escrever. O que há com as palavras que me assaltam tão insuportavelmente? Agora, por exemplo, eu preencheria o mundo com palavras. Como pode ser assim, se há pouco eu as tanto procurava?)

(ins)piração


 

23.1.14

Confiança

Sinto confiança para fazer tudo o que eu quiser. Tudo. Não que tudo vai dar certo. Mas eu farei. O que eu quiser. Confiante.

***

Esvazio meus pensamentos. E sigo. Um exercício para o ano. Sigo, esvaziando-me.

16.1.14

Silêncio (Escrito em casa de Mati)

Silêncio, o silêncio.
Este será o ano do silêncio.
E da delicadeza.

Não direi mais nada.
E sentirei tudo.
O essencial, o afeto.

Amarei e ponto.
O amor e nada além.
Só o amor.

Perceberei cada sutileza
de um dia de verão
- o mais quente -
ou de um dia de inverno
- o mais frio.

E não falarei nada,
não pensarei nada.

Serei leve
nas tardes mais pesadas.

Serei o mais quieto dos amigos
em suas falas mais desesperadas
de terrível dor.

Meus amigos não sofrerão.
Serão suaves,
como eu sou.

Com o silêncio e a delicadeza
serei eu, tão-somente eu,
o que desejo para o ano.

Silêncio, silêncio.

13.1.14

Escrito em casa de Pãe

Sampa, minha cidade.
Aqui, raiz.
És tão grande como eu sou,
infinitude de potências.
Compreendo agora:
como és o mundo,
sou do mundo.
Meu trampolim.
Caleidoscópica, sou muitos;
múltiplas, me amplia;
tantas, fácil perder-se...
Me perdi, não te perdi.
Estás em mim,
impossível esquecer.
Te reencontrei em mim
quando já não te queria.
Tens presença - és raiz.
Hoje sei como me impregnas,
(intenso contraditório da experiência)
és impulsora do desejo infinito.
Por ti sou forte!

7.1.14

Inquietudes

Você lá, eu aqui, infinito andar.
Distância que parece sem fim.
Se esqueço, na alma, todo teu calor,
só pelo longo completar estás em mim.
Te encontro onde o mar se faz revolto!

Um oceano é sempre mais vivo
que a escuridão de uma prisão.
Estamos libertos da tirania.
Nos amamos em convulsão.
O entre, por nós, é que faz o desejo.
Assalta o corpo e me liberta!

No coração e na mente,
um buraco enorme.
Talvez você também sinta.
Por vezes, não dorme.
Eis o que me liga a você!

Um vazio que não é falta.
Diferente da incompletude,
é do amor que nos assalta.
Essa abertura que é de inquietude.
Em redemoinhos nos encontramos!