28.11.16

como amar, também aprendi

o amor não finda, se sabe que sempre se está a aprender a amar. o amor finda e acaba em rancor e ressentimento desde quando se pretende saber tudo sobre o amar. o amor é surpresa, é espanto, é vislumbre, é estalo. amar tampouco é rivalidade, disputa egoica, competição intransigente. amar nem é salvação, o último suspiro que traz o paraíso. amor é terreno acidentado, mas acolhedor. é natureza selvagem, aquela a exigir humildade e desprendimento, confiança e coragem. um tanto cabana no campo ou casebre na praia, quando a noite gelada e a densa maresia impregnam a pele com a frescura do inexplorado. amar não é condição palpável. e o amor, tão perigoso e acolhedor, ainda é aventura desprendida, que junta, espalha e faz borbulhar o inesperado ar da renovação e reposição do incessante sonho do prazer.

14.11.16

Paixão e amizade, amor

Os gregos antigos falavam que a amizade era a condição para a política. Para se fazer política - essa atividade de seres humanos que decidem autonomamente seu futuro - era necessário construir a amizade. A amizade enquanto a constituição de um mundo comum, pelo estabelecimento de relações afetuosas, através da linguagem humana, que respeite as diferenças. Ter amigos é essa coisa tão bela da vida.

Tenho me perguntado sobre a relação entre amizade e paixão. Seriam dois sentimentos antagônicos? Talvez não antagônicos, mas quase que impossíveis de se encontrarem num mesmo lugar e momento? Onde há paixão deixa de existir amizade? Ou, como pensavam os gregos antigos, a amizade seria uma construção feita primordialmente pela linguagem, portanto predominando a racionalidade em detrimento de sentimentos como a paixão?

A amizade se basearia na paixão, sim, mas com uma boa distância em relação ao outro, nosso amigo ou amiga. E, nesse sentido, não seria possível apaixonar-se por um amigo, pois a amizade cessaria, perderia o distanciamento necessário.

Wislawa Szymborska assim escreveu, no poema "Gratidão", sobre o amor (que aqui estou chamando "paixão"): "Devo muito / aos que não amo. / O alívio com que aceito / que sejam mais benquistos por outros". Pois é esse alívio - o qual só a amizade pode nos dar - que permite entender e perdoar o que jamais o amor (ou a paixão) entenderia ou perdoaria. Assim é que "Desde o encontro até a carta / não passa uma eternidade, / senão simplesmente dias ou semanas". O tempo da amizade é um; o da paixão, outro.

Não sei, não quero acreditar nessa incompatibilidade entre amizade e paixão. Tenho pensado que esse seria um dos desafios de nossa existência na rápida passagem por esse plano astral. Viver a amizade e a paixão, juntos, simultaneamente. Não só no sentido do "minha paixão é minha melhor amiga". Mas em sentidos mais sutis, que envolvem sentimentos tão carregados de energia, de identificação, que mal conseguimos controlar. Como o medo de se apaixonar por um amigo e perder a amizade. Ou o fim da paixão que é o fim de toda e qualquer possibilidade de amizade.

Creio que um desafio tremendo seja ir da paixão à amizade (e vice-versa) sem perder algo no meio de todos esses sentimentos tão intensos: o amor. O amor está em tudo, é a fonte vital. E assim como não nascemos sabendo amar (pois o erro, quem sabe, é supor que já se sabe amar), nos esquecemos do amor. Paixão é amor. Amizade é amor. Viver é amar: o que emana do centro vital do cosmo que está em nós.

Então a paixão que vira amizade pode ser aquela que reverencia o amor que está em todos nós. Transitar bem entre esses sentimentos - principalmente nas paixões mais intensas - é fazer um grande exercício de compreensão sobre o amor que nos atravessa. O hercúleo exercício de entender onde está o amor em determinado momento de paixão ou de amizade. Ou, mesmo, questionar se o amor tem que estar em algum desses polos. Vivenciar a paixão que é um tanto de amizade, ou aquela que agora (depois de tudo, tão intensa e carnalmente, sentida) é um tanto mais de amizade. Enfim, aceitar que o amor está lá, a ser reverenciado.

2.11.16

Mar, chama

e foi, quando o mar chamou, um para sempre que é sempre agora, não há como titubear - só se pensar, mesmo pouco -, tá na pele, que ali sua, impregna-se do óleo da terra, de tantos mil anos de rastros, encontros, nós, passagens, insisto nisso, se intue, o corpo relaxou, sentiu-se em casa (primeva vez em tão longe paragem que é aquele antigo pedaço de mundo), rebeldia no que se mira, nada fácil, muita possibilidade, novos circuitos que se avizinham, há um convite sendo feito, se a perspectiva revirar, o uso e gozo que é outra riqueza, o mar chama.

1.11.16

Lunar

em meu sangue
ainda arde
o calor daquela lua cheia,
incendiária dama,
tórrida fruta carnal,
dias e noites
do amor urdido
em tramas de fluidos,
essências, toques
e profundos sentires,
dos quais ainda escapam
teu rutilar sussurro
e felino roçar
(ainda somos terra,
poeira rumo ao astro,
inescapável desejo
de pulsar incessante)
lua cheia, pele, 
suspensão do tempo,
calor, entrega, pegadas
que sigo, sentires
de sem fim, mergulho
vertiginoso em ti.