31.8.13

Sendo, não é

O que se avizinha sem se perceber:
a presença não se sente, nem se entrega.
À espreita, sem qualquer vislumbre.
Qual sua imagem, qual sua fragrância,
não se sabe, nem se quer deixar
abarcar por aquilo que é falta.
Pouco se encaixa, tudo extravasa
ou se liquefaz. Por entre os cabelos
os dedos não tateiam; penetram
as dúvidas, em ti, teu medo,
a desconfiança sobre o que queres -
queres? Se faz, sorrateira,
embebida em malemolência,
o que é sendo, o que não é.

29.8.13

Doce

quero a loucura. loucura me tenha! conduz meu corpo e minha alma pelas ruas malemolentes da cidade. a doce loucura, seu perfume inebriante, sua mão leve, seu cabelo sedoso e revolto, sua felicidade transbordante. loucura, seja minha guia, seja minha escrita!

***

não sou eu quem escreve. são as palavras que me escrevem. são as palavras que se descrevem. por vezes, são elas mesmas. por vezes, são ideias. muitas vezes são o nada, o doce nada.

***

ah, será isso a felicidade, a doce felicidade?

***

27.8.13

Noite ou dia?

Alguns passos eram tropeços;
Os neurônios se desencontravam;
A vista parecia um rio transbordante;
O coração exalava perfume barato;
Um cheiro bucólico umedecia o nariz;
Sons dissonantes atravessavam o ouvido;
As articulações se contorciam sem o querer;
Na escuridão, um raio de sol insistia;
Pelas ruas viradas, o ônibus como coruja;
O horário se perdera e não se encontrava;
A fome desejava líquido, os pés a cama.

Enquanto suspirava a noite amada.

25.8.13

grito

o que me comove?

a noite, a vida
o anseio, a preguiça
o desejo, o regozijo
a barata, o grilo

- o grito que em mim grita!

22.8.13

um livro, um metrô

metrô lotado.
um livro entre mãos,
dois olhos vidrados,
uma boca perdida.
cena deslumbrante,
inesperada e linda,
um fim de tarde qualquer.
te amo,
à distância.
te vejo,
algum dia?

Quadriláteros

Nada temer das palavras
Apenas deixar rolar
Os sentimentos soltar
Voar como as araras

***

O tédio paira no ar
Cadê meu mar?
Quem vou amar?
Tenho a vida para decifrar

***

Teu rostinho colado ao meu
Hoje à noite te quero no breu
Do quarto pra bem gritar: fudeu!
Prometo que serei todo teu!

***

É sexta-feira
Vem minha camareira
Não ser freira
Mas, sim, feiticeira!

***

Suruba em minh'alma
O corpo não se acalma
Para vocês eu bato palma
Eu também quero a Thalma!

***

Viver em eterno desejo
No coração não faço despejo
De qualquer sentimento que entrevejo
Como algo verdadeiro pelo qual pelejo

***

Meu poema é rôxo
Não é côxo
Nem é frôxo
Muito menos xôxo!

19.8.13

Febre

Delírios febris,
nuvens lá fora,
garoa úmida.
Peito cheio
de lembranças infantis.
Deito na cama
da adolescência confusa.
Confundo as emoções,
a febre sobe
e junto as recordações.
Algumas mais recalcadas
do que outras.
Compreendo que somos vários.
Eu, vários de mim,
hoje e na adolescência,
sou muitos, agora,
que se distanciam
e se aproximam
do que eu sonhara
nesta cama.
Em muitos anos,
eu sou e eu era
múltiplos de mim.
A febre baixa.
O delírio revela
o prazer de ser
diferentes.

15.8.13

Nuvens

Nuvens no fim de tarde,
um carneiro se forma.
Infância revisitada.
A bela boca de um dragão se abre,
abocanha o carneiro.
Oh, infância desolada!
Um disco voador cruza o céu.
Antes, mata o dragão!
Viagem adulta inconscientemente alterada
pelos catalisadores que distorcem a realidade.
Da literatura às substâncias que se ingere,
todo dia o adulto se toca com sua criança.
Nuvens em formação dentro de si.

14.8.13

Kratom

Intenso, tenso, denso.
Relaxo, em sonho.
Direto ao cérebro,
seivas diluentes,
mastigo, sorvo: expandem.
Cai a pressão, outro tempo.
Adormeço, acordo: incógnito.
Distensão das vibrações,
flutuo, o ar.
Por horas, que sou?
Passa o vento, pássaro,
o que penso?
Intenso, distendo - um novo verbo?
Entre folhas orientais,
viagem.

Tempo

- Licença, vou ali me acertar com o tempo do universo!

13.8.13

Sem Nome

Beijos, bocas e salivas:
vida é lascívia.
Sexo, odor e calor,
entremeios de corpos.
Saúda aquele Sem Nome!
que lhe dá o prazer
onde menos espera.
Mas sempre pede.
Inconscientemente pede!
Ir e voltar no mesmo corpo,
o ardor e o deleite
na dor fustigante.
O fogo os consome
e serão um, com outros.
Pássaros que passam
por sexos em perversão,
sem ser antes ou depois:
grita pelo Sem Nome!

Fogo Hindu

Anaïs Nin & Henry Miller
"Quando partiu, Elena estava contente. Será que o amor podia se tornar um fogo que não queimava, como o fogo dos religiosos hindus; será que ela estava aprendendo a caminhar magicamente sobre brasas ardentes?"

[Anaïs Nin, In: "Elena"]

12.8.13

Poema sujo

Em dias de vento
o coração se cobre menos.
A emoção do cão que se conduz
toca o coração do vento.
Uivos pulsam pelo espaço empoeirado
de uma noite sórdida de outono.
O cume do morro não é visto.
De lá, o coração uiva, em meio à névoa.
Bate mais forte o desalento,
enebria-se mais o fraco,
sitiado em fétido bar de esquina.

8.8.13

Histórias animais

É o diabo quem guarda a história.
Não é o diabo do bem ou do mal.
Apenas o diabo,
aquele que guarda a história.
Com o qual nos juntamos
pra saber o que foi o mundo.
Histórias animais.

de leite

da vaca ao cogumelo
da vaca ao doce de leite
do cogumelo ao deleite
na cama em que eu me deite
com o amor de caramelo

7.8.13

Vento longe

Vento longe
me diz
que o mar
me espera
Vento longe
me faz lembrar
do cheiro
da maresia
Vento longe
me traz
o sossego
de uma calmaria
Vento longe
me agita
com a recordação
da quebra das ondas
Vento, vento longe
me leve pra mais perto
da areia branca
do sal da água
e sua espuma tenra.
O vento se torna brisa.
Mar, logo logo estou aí!

6.8.13

guitarras esvoaçantes

guitarra, guitarra, guitarra
guitarras e vísceras
explodem freneticamente
pelo ar surreal
da noite que projeta
os sonhos mais psicodélicos.

5.8.13

Multipossibilidade

E se eu fosse uma folha, e voasse e voasse, soprada pelos ventos mais quentes de uma tarde de verão, até cair na terra de uma floresta subtropical, misturando-me a milhares de outras folhas, quando depois de um bom tempo milhares de formigas me picoteassem e me transformassem em múltiplos de mim mesmo, povoando um pouco mais a terra?