30.9.13

suspiro

oh minha extrema sensibilidade
enquanto sinto, me traz mais
intensidade sub-cutânea
desde os poros até a alma.
como pode me trazer tamanha intensidade?
não és daqui, és dali, do inominável
tens a pele da pantera, negra,
indomável! intensa felina, me castiga.
tamanho sentimento não é real.
o que me deste? o que tomaste?
negra pele, negro sentimento que enobrece.
sinto a tua pela, teu interior?
diz! não posso mais dizer, sinto
intensamente sinto, o que queres?
ah, o fragor da pele, do hálito, do sexo...
é fragor e fluido, escapa a boca
invade o corpo, o bico, o topo, o lábio
torpor - como pode? cruel...
sacanagem gostosa, suspiro!
deleita-me com teu mel.
é doce e insaciável, não quer fugir.
entrega-te ao meu céu!
estrela já é! constelação de desejos.
virada cósmica, indaga:
onde está o véu? e aqueles meus? seus?
virada cósmica, a chuva cai.
rebenta o desejo em esplendor úmido.
pula, é límpida a água que te escuta.
pula! não é vilipendio. é úmido!
escuta aqueles a rirem, em tua quadra,
são teus "eus", magníficos estrondos.
não há curvas. só ao sul, quando te encontras
ao mar. deseja a onda! bate. feroz.
amanheceu no universo. brisa. pula.
aquece o mar. ele vem.
te contempla. me amansa.
durmo. ao teu lado.

27.9.13

a poesia nunca vai te largar
se a encontrou, ela nunca te esquece
a poesia é o vento que bate
naquela tarde inesquecível
e te recorda os amigos, parentes, pessoas
indeléveis na alma, nos sentimentos, nos afetos
poesia é doçura, é encanto, é forma, é inspiração
não há tempo nem espaço pra tudo
o que se sente pela poesia
haverá um canto especial, ali no final da praia
onde nos encontraremos,
pra reunir essa gente que é vida
é piração, é loucura, é paixão, ali
onde o rio se torna mar, o mar em rio
não há tempo e espaço, nem poder
sou eu e você, então, nós, sem idade e orientação
qual o sentido da paixão? escolha
o puro desejo - não existe tempo, qual a razão?
ambivalências, esqueça! no travesseiro há mais sonhos
imóveis destinos empertigados
aquela capa é do interior, cinza, o sol nunca se pôs
agora sei, a luz é interior, nunca se apaga!
tinha angústias com os signos.
parar, marcar, exclamar, perguntar
nada vale ao final, se não há final
o oxigênio ainda serve, repara tuas veias!
o amarelo da cerveja bate, felina!
auditório cheio, é pra você? não.
esgrimiu a verdade, ela te relega o canto
ali onde estão teus amigos - prefiro o guarda-sol
cadê o verão? el niña, será verão de chuva e frio
saudades de brasília. meses de chuva, chuva.
ó, areias d'eu, aqueceis o cerrado em janeiro!
estamos todos nus, em canto de praia amiga!

zztossi, cep vinte mil, espaço cultural sérgio porto (26/09/2013)

24.9.13

Saudades candangas

Asa Sul, Brasília (2012)

Faltas de Brasília. Imagens na cabeça. Alguns cheiros da cidade me assaltam. O céu azul, amplo, engolindo tudo. O cheiro da chuva que começa a cair nessa época do ano. [muita coragem para escrever sobre os sentimentos da saudade mais profunda...] O Parque da Cidade e as grandiosas caminhadas no sábado à tarde. O Eixão fechado aos domingos, o sol escaldante mas aconchegante, e o asa-asa de bicicleta, 32 km pedalados. Sessões de cinema. Amigos, encontros na casa de um amigo especial. Pastinhas do Beirute; gosto do beiras da Asa Sul, acostumei com o da Asa Norte, virei fã. Um pulo na Água Mineral é inigualável, pois pedaço do místico cerrado. "Preciso dar um pulo em Brasília, urgente!" - minha alma pede. Muitas saudades. Sentimentos de amor por aquela estranha cidade - só a poesia pode explicar. Foi em Brasília que eu reencontrei a poesia. Lá, escavei meu eu e recuperei a poesia. Poesia, o que dá beleza ao viver - sem ela, se é inexpressivamente normal. Tudo graças aos amigos e amigas, que colocaram vacas nas calçadas pelas quais andei em Brasília...

Parque da Cidade, Brasília (2012)

23.9.13

Voltar a sonhar

Víbora que parte para o além
Estridentes marcos de vilipêndio
Quer arrancar tudo, devorar terra
Osso é o alimento do escárnio
que brota de seu ventre.
Pútrida felicidade - acalma o vivente!
Pula, pula o intrépido sobre o corpo inerte.
Quis ser como ela. Acabou se pendurando
A bancarrota não teve sentido algum
Queima a brasa para lhe iluminar o caminho
Arde a parte mais viril do teu corpo - faz arder, vai!
Enquanto o sol não vem, só há o pecado a cometer
O brilho da lua tem o sermão enternecido
Em dias cinzas, qualquer metáfora é amor
Jogou, pela janela da mente, o quente travesseiro
Não dorme nunca mais, delira!
Escolhe o sangue que mais lhe apetece
O coração cora, quer fugir - brame o nome do pecado!
Árvore aquietante do desejo, galhos alboreais
Química insana da poesia, jamais é dita
Verbo do amor é calor! Não pense, deite!
O relógio marca o tempo, loucura.
O estranho se esgotou durante a maldição heroica
Na dimensão trépida me seduz!

- Voltei a sonhar como se estivesse acordado. Hoje sonhei com muita felicidade.

22.9.13

Fluxo

Deixar fluir,
deixar-me fluir,
deixar fluir-me.
Fluo, sem pretensões.
Sem tensões, fluo.
Com tesões, fluo.
Influo no mundo.

20.9.13

Em terras estranhas

A poesia avançou como louca,
aguçada em terras estranhas,
torna a ser fluida.
Viagem, que abala, ardentemente, as entranhas,
fermenta a palavra desinibida,
não é pouca.
É puro grito, rouca.
A poesia que tudo leva
e o mundo subleva.

16.9.13

termos

e eu fui entrando cada vez mais na loucura. o mundo não teria mais divisões. o homem e a mulher, o dia e a noite, o certo e o errado, o belo e o feio, o hetero e o homo, o sim e o não, o fim e o começo, o esperto e o malandro, o bom e o ruim. tudo seria um só. o uno que seria múltiplos. a diversidade. o amor a tudo. a todos, em todos. um sonho silencioso durante o dia. um ardor profundo à noite. o eclipse do amor e a explosão do tesão. sem meio termo.

15.9.13

Sem medeios

É preciso ir além. Ser visceral. Soltar todas as emoções. Sentir, sentir e sentir! Tem que vir lá de dentro. Vem lá de dentro. Sai com emoção. A emoção pura. Sem mediações. É fogo, é lava, é paixão, é fúria, é raiva, é beijo, é língua, é desejo, é lascívia, é porra, é cu, é caralho, é buceta! Se faz na delicadeza. Vem lá de Jorge Ben, passando por Tim Maia, chegando quando do canto dos pássaros numa manhã de domingo, depois de uma noite não dormida. Em sonho. Simplesmente é lindo, pois é gostoso, é delicioso. É simples. O não pensado, o inflado e o desbocado. Aquele que é aberto ao mundo. Aquela que sorri. Desde a parte de baixo, tirando a parte de cima. O clímax, o êxtase, o sexo, o delirante, o meio, a curva, o labirnto, o caju e o suco, a seiva e o delírio, a praia, o sol, a areia e, sobretudo, o suor. Sem esquemas, mas sem negativo. Incoerência, sim! Incompetência, não! Aí se mediria. Não há medida. O sem fim. A noite é mais longa que o dia. O gozo não é todo o sexo. O voo é o céu, mas não é todo o céu. Vem, vem, vem, vem nos meus braços. Nos braços, porém não é meu. Nem é minha; a paixão é por aí, entre tudo. Entretenha-me. Não manda, deseja! É tudo em todos!

13.9.13

Complicações

"À medida que avanço cada vez mais em minhas complicações ("Todo mundo amou você na outra noite", disse René), é o ciúme dos outros o que agora me ocupa, pois conheço seus horrores. E está ficando cada vez mais difícil fazer quatro homens felizes".

[Anaïs Nin, in: "Incesto"]

ama!

a lua clama
a lua me ama
a lua inflama
meu desejo
de trama
quando ela
me chama
de noite
pra cama!

12.9.13

Dúvidas cruéis

E o que fofocam essas duas
enquanto o poeta escreve?

E o que escreve o poeta?

Mas o que fofoca e o que escreve,
o Mundo?

Ser animal

O animal. O instintivo.
Floresce em mim!

Me domina.
Amplia meus sentidos!

Faz de mim
um gato, um rato.

Um ser animal
que se conecta
à natureza.

E avança
por rios e florestas.

Impregnando-se
de cheiros e sabores.

Exalando odores
de aventuras e paixões.

Grãos de areia

Eu me jogo rumo ao incerto.
Ofereço-me enquanto oferenda
ao que há de improvável
ou, ainda, de provável.
Ao que não se sabe:
deus, deusa ou deuses e deusas.
O que lá for, assim será
ou não será.
Os grãos de areia se esvaem
pelo entre das mãos.

10.9.13

O charme da escrita

Quando se começa a afundar cada vez mais na escrita, os meios se tornam mais interessantes, mais instigantes ao gosto interno. Uma caneta pode ser qualquer caneta, uma simples caneta. Mas quando se afunda - mesmo! - na escrita, a caneta não é uma reles caneta. É especial, tem textura, tem desenvoltura, movimentos, espessuras, arranques e paradas. Cada caneta na mão não é mais uma caneta qualquer. É uma guia única para um mundo especial de palavras, que só ela pode conduzir na experiência da criação escrita. Talvez o mesmo ocorra com as fontes nos processadores de texto. Assim também se dá pelo papel. Um papel mais claro ou mais escuro, mais denso ou mais fino, faz com que a escrita reaja de modos distintos ao universo criativo do autor. Isso tudo - canetas, papéis, fontes, ventos, temperaturas, sonhos, aromas - só se torna sensível ao escritor se ele se afunda, cada vez mais, no misterioso ofício da escrita.

9.9.13

Cerrado

Poesia em poros,
todos do corpo,
em cada poro um verso.

Verso que vira calafrio,
gostoso que dá
quando a língua encosta
o poro.

Poesia sub-lingual,
pra abrir os poros:
quente.

Queria o céu em meus poros!

Meu corpo gramado,
sentindo a imensidão
expandida do horizonte,
no cerrado...

8.9.13

Barata

Conversa que atravessou a cozinha - um fim de tarde de domingo -, vindo da vizinha de baixo:
- ela foi tomar banho e na hora que ia abrir o chuveiro tinha uma barata enorme lá!
Será que a cena de Clarice e a barata impregnou a vida?

7.9.13

lua cheia

luas, luas
quantas luas
terão que passar
até chegar
a lua cheia?
enquanto ela não vem,
me inquieto,
agonia me assalta,
a falta me tem.
quando chega,
só consigo
agradecer!
me toma por inteiro,
sou teu devoto,
me preenche
e me completa.
me enlouquece!
é o que mais quero,
quando chegar
a lua cheia.
enquanto isso...

Fluir multilateralmente

"O esforço que faço para traçar o contorno, cinzelar, demarcar, separar, simplificar, é ridículo. Devo fluir multilateralmente. Ao menos aprendi uma grande lição: a pensar, mas a não pensar demais - para eu poder me deixar levar e, quando as coisas acontecerem, não levantar uma barricada intelectual contra elas, interferindo no movimento da vida com preparações excessivas. Penso apenas o suficiente para manter vivo um estrato superior de consciência, enquanto escovo o cabelo, toco meu rosto, pinto as unhas e escrevo meu diário - nada mais. O resto do tempo eu passo trabalhando, copiando, trabalhando. E me deixo levar pelo ímpeto".

[Anaïs Nin, in: "Incesto"]

6.9.13

DUZENTOS E VINTE E CINCO GRAMAS – uma releitura (1/6)

O celular tocou. No visor, o número de Renata. Estava atrasado para o trabalho. O café ainda pela metade. Hesitou, mas atendeu. Do outro lado, uma voz sombria, quase em pranto: “Elza morreu. Mataram Elza!”.
Não quis acreditar. Perguntou: “Como?”. A confirmação veio como um soco no olho. “Sim, Henrique! Elza foi assassinada. Mataram a facadas, na noite de ontem”. A amiga, ao telefone, já em prantos, não quis contar os detalhes. Não podia imaginar o que aconteceu. Não suportava saber o que fizeram com Elza. Estava em choque.
Henrique não perguntou mais nada. Apenas ouviu o pedido de Renata: “Vá ver Elza no IML! Eu não consigo. Você sabe que ela não tinha parentes por aqui”. Não hesitou em atender ao pedido da amiga. Por mais que tivesse compromissos inadiáveis no trabalho. A amizade é um sentimento maior do que o entendimento, a razão. Elza estava no IML desde a noite anterior. Pela manhã seria feita a autopsia de seu corpo. Era a última chance de ter um momento de intimidade com ela. Sem terminar o café, foi.
Chegou ao IML em trinta minutos. Não conseguiu trocar uma palavra com o taxista. Que não ousou puxar conversa, sabendo do destino do passageiro. No caminho, foi tentando ligar os pontos da vida de Elza. Com o terrível assassinato. Ainda estava confuso.
O táxi parou. Pagou a corrida e desceu. Entrou no edifício do IML e logo sentiu a energia do ambiente. Densa, cinza, carregada. Na recepção informou por quem procurava. A funcionária olhou um velho caderno de planilhas e respondeu, seca, direta: “Quinto andar. Segundo elevador à esquerda”. Henrique não pôde agradecer ao tom burocrático da recepcionista. Seguiu a indicação. Identificou-se na roleta. Segundo elevador à esquerda. Apertou o botão número cinco. O luminoso acima da porta contou: 1... 2... 3... 4... 5. A porta se abriu.

DUZENTOS E VINTE E CINCO GRAMAS – uma releitura (2/6)

Era uma sala grande, de um branco envelhecido. Três poltronas no canto direito e uma porta-balcão à frente. Sentados em duas poltronas, dois rapazes de meia idade. Não havia ninguém na porta-balcão. Sentiu-se incomodado pelo ambiente inóspito. Só queria ver Elza. Perguntou para os dois sentados no canto: “Não há ninguém para atender?”. Os rapazes ficaram impassíveis. Insistiu: “Tem que haver alguém”. Nada. Irritou-se. Começou a andar pela sala impacientemente. “Elza estaria ali mesmo?”, pensou já angustiado. Alguns pontos da vida de Elza fizeram sentido em sua cabeça. “Sempre se escondendo”, refletiu.
Tentou provocar os dois rapazes: “Isso parece um cemitério”. Os dois estavam catatônicos. Parou de andar pela sala e a provocação pareceu ter surtido efeito. Um homem de avental branco abriu a porta-balcão e falou: “Sim?”. Já tendo a noção da frieza e da crueldade dos seres burocráticos daquela repartição, emendou com ar de irritação:
“Eu quero falar com o diretor.”
“Ele não está.”
“O legista está?”
“Qual deles? Temos vários legistas”, disse o homem de avental branco.
“O que está fazendo a autópsia.”
“Que autópsia? Umas quatro autópsias vão ser feitas hoje”, respondeu o homem de avental branco.
“A autópsia da dona Elza Wierck”, disse Henrique em voz baixa. As lágrimas quase vieram à tona. Emocionou-se profundamente.
O homem de avental branco relutou: “Vou ver se ele pode falar com o senhor.”
Quando falou o nome de Elza, sentiu os olhares fustigantes dos dois rapazes sentados na sala. Também conheciam Elza. Assim como ele, estavam lá por causa dela. “O que eram? Parentes? Amigos? Amantes?”, pensou, com uma ponta de curiosidade e outra de ciúmes.
Um dos rapazes não se conteve: “Elza era sua parenta?”. O outro emendou: “Eu também vim saber da Elza”. O pressentimento de Henrique se confirmou. Eram alguma coisa de Elza. Respondeu aos dois rapazes: “Parece que nós três viemos por causa de Elza”.
A conversa atingiu um ponto sensível dos sentimentos dos três rapazes. Três desconhecidos nutriam alguma ligação com uma figura feminina, pela qual sentiam especiais paixões.
Um dos rapazes não se conteve: “Eu pensava que era o único – o único, ahah, amigo de Elza. Ela era muito expansiva e alegre: eu sabia que havia, posso ser franco? – outros, mas não me importava.” Desabafou sobre sua própria vida. Sobre o quanto era solitário e se dedicava ao trabalho. Elza era uma de suas “amigas mais íntimas”. Mesmo sabendo que podia ter outros amigos bem mais íntimos que ele.
Henrique ligou, em sua cabeça, mais pontos sobre a vida de Elza. Sobre o quanto, nos últimos meses, se abrira para a experimentação. Passou a se interessar só por desconhecidos. Queria amar tudo e todos. Descobrir seu corpo. “Era muito presa”, dizia.
Observou um dos rapazes. Pensou que poderia ser alguém que Elza conheceu em alguma daquelas festas malucas que começou a frequentar. Ela gostava de contar as histórias dessas festas para Henrique. E, toda vez, ele fervia por dentro. Há pouco tempo ela tinha começado a escrever sobre suas descobertas. Uma espécie de diário. Henrique gostaria de saber onde estaria esse diário. Seria uma forma de entender o ela viveu. Já sentia falta muita falta de Elza.
 “É estranho”, refletiu em voz alta. Um deles reagiu: “O quê?”. Henrique continuou: “O fato de sermos três, amigos, hum, íntimos, de Elza. Eu fico um pouco chocado com isso, sabem? Chocado não, surpreendido. Vocês não ficam?”. Os dois rapazes se calaram. Talvez sentiram certo constrangimento, pensando na intimidade compartilhada com uma mulher em comum. Um misto de ciúmes, inveja, rancor e paixão impregnou as mentes daqueles rapazes. Um deles preparava-se para falar quando foi abruptamente interrompido pela chegada do legista.

DUZENTOS E VINTE E CINCO GRAMAS – uma releitura (3/6)

“Boa tarde. Em que posso servi-los?”
“Nós somos amigos, éramos amigos da dona Elza Wierck, a moça que foi...“, balbuciou um dos rapazes.
“Lamentável”, disse o legista, “lamentável. Pobre moça! Prenderam o tarado que a matou, não prenderam? Era o namorado, não era?”
“Nós éramos amigos dela”, falou o outro rapaz.
“Ela não tem parentes?”, perguntou o legista.
“Não sei”, respondeu um dos jovens senhores.
“Acho que não”, disse o outro.
“Ela era suíça”, disse o legista, esfregando as mãos como se estivesse muito satisfeito em ouvir aquilo. “Uma linda mulher”, continuou, “pode-se ver, mesmo agora.”
Henrique não abriu a boca. Conhecia Elza muito bem para dar informações pessoais ao frio legista. Ligou, então, mais alguns pontos da vida dela. A jovem suíça, que veio descobrir o Brasil. E se descobrir. Ela sempre dizia a Henrique: “A Suíça é muito fria. As pessoas são muito distantes”. Ele não entendia como ela conseguiu deixar a Europa e todas as benesses do primeiro mundo. “Lá vocês tem tudo. Saúde, educação, civilidade. Aqui é uma barbárie!”, dizia. Talvez a barbárie daqui tenha encurtado a vida de Elza. Mas, aqui, ela pôde viver intensamente. Viver as paixões que não viveria na fria civilização. “O que vale mais, a paixão ou a civilização?”, pensou Henrique.
“O senhor já fez a autópsia?”, intrometeu-se na conversa. “Não, não, ia iniciá-la quando me chamaram.”, respondeu o legista. “Nós viemos aqui...”. “Já sei”, cortou o legista, “os senhores querem assistir à autópsia”.
Henrique ficou furioso por ser interrompido. Já os dois rapazes se assustaram com a ideia de ver a autopsia. Ficaram visivelmente transtornados. O legista prosseguiu:
“Não sei se os três poderiam entrar; isso é muito irregular.”
“Bem”, disse um dos rapazes, já branco de medo, “não há necessidade; se não pode não pode – não vamos romper os regulamentos”.
Mas o legista continuou. Percebeu o jeito incomodado de Henrique. Ele entrava ou entrava.
“Nós sempre fazemos exceção para os parentes”, disse o legista. “A pobre moça não tem parentes no país, os senhores mesmo disseram. Coitada. Os senhores são como se fossem seus parentes; afinal, são amigos. Eu não sou daquele tipo de funcionário burocrático escravo dos regulamentos. Sou um médico – vejo o lado humano das coisas; para mim os regulamentos não podem ser obedecidos cegamente. Eu lhes digo o que vou fazer: permitirei a entrada de um dos senhores, para que assista a esta tarefa, que, infelizmente, tem que ser executada, está na lei.”
Um dos rapazes expos sua relutância e perguntou: “Mas é necessário?”. Estava realmente com medo. “Não poderia ter amado Elza profundamente”, pensou Henrique. “Não daria todo amor que ela demandava. Elza amava sem limites. Seu amor era o mundo. Não era falta de algo, era tudo”. Henrique ligou mais alguns pontos na vida que tinha acabado.
O legista foi incisivo: “Qual dos três? Ela está esperando”. Um dos rapazes balbuciou: “Qualquer um de nós...”. Henrique pensou, “mais um que não soube amar Elza”. E se dirigiu ao legista: “Eu vou”, encarando os dois rapazes, encarcerados em suas travas que não permitiram saber o que é amar Elza.

DUZENTOS E VINTE E CINCO GRAMAS – uma releitura (4/6)

Henrique adentrou, guiado pelo legista, o corredor que levava até a sala de autópsia. Não podia imaginar como se encontrava o corpo de Elza. Se vestida, qual roupa estaria usando. Se nua, como o corpo estaria ferido. Apenas se lembrou da última vez que a tinha visto. Duas semanas atrás. “Estava exuberante. Tinha um brilho nos olhos. Uma chama no corpo. Irradiante”, recordou, saudoso. Ela contou que estava descobrindo o que era se entregar a alguém. Sem se prender. Estava com alguém, mas não quis contar quem. Elza não cabia em si.
Entraram na sala de autópsia. Ela estava deitada numa mesa de mármore. Vestia uma saia, blusa de seda estampada e não calçava sapatos. Henrique viu que estava serena. Como se estivesse descansando após uma grande festa. Festa que foi sua vida nos últimos tempos.
A sobriedade do ambiente o incomodou. Havia um enfermeiro e um escriturário sentados, sérios, pareciam não ter alma. Os procedimentos burocráticos deveriam ser executados.
 “Primeiro temos que tirar a roupa dela”, disse o legista. Tiraram a saia, a blusa, as peças íntimas. Era uma saia de tergal, uma blusa de seda estampada, sutiã de nálion e uma calça também de náilon. O escriturário anotou. Henrique nunca tinha visto Elza com essas roupas. “Deve ter ganho na sua recente paixão”, pensou.
 “O homem queria mesmo matar”, disse o legista, olhando o corpo profissionalmente. “Veja quantas facadas.” Os ferimentos, como se fossem desenhos, espalhavam-se pelo corpo.
Lavaram o corpo e uma água vermelha, como vinho, desceu pelos cantos da mesa. Com um estilete graduado, o legista começou a medir os ferimentos. “Um com três centímetros na face externa do terço superior do braço esquerdo.” O escriturário tomava nota. “Um na região axilar esquerda, dois centímetros e meio, perfurante. Dois na face interna hemitorácica esquerda, cada um com quatro centímetros.” O legista enfiava o estilete nos ferimentos e olhava cuidadosamente as marcas do instrumento. “Ferimentos profundos. Amor profundo”, imaginou Henrique. Elza deve ter achado sua verdadeiro paixão, que a amou profundamente.  Refletia em meio ao horror de ver as feridas no corpo.
O enfermeiro, então, abriu com um bisturi o corpo inteiro de Elza, da garganta à região pubiana. “Depois cose-se tudo”, explicou o legista, “a reconstituição é perfeita. A linha aparece, é claro.” O enfermeiro levantou a cabeça de Elza e com um bisturi abriu o seu crânio. Começaram a tirar tudo de dentro do corpo.
Henrique sentiu-se enjoado pela primeira vez. Mas continuava a ligar os pontos da vida de Elza. A abertura do corpo remeteu à abertura dos sentimentos quando ela amava. Elza abria todos os cantos de sua alma para quem quisesse amá-la. Todos seus sentimentos deveriam ser vividos por quem a amasse. Depois, fazia com que colocassem tudo de volta. Uma tarefa hercúlea. Poucos a amaram em sua plenitude.

DUZENTOS E VINTE E CINCO GRAMAS – uma releitura (5/6)

O legista retirou o fígado. “Fígado – um quilo e cem gramas. Ela não bebia, certamente, tivemos um aqui, outro dia, com dois quilos e tanto, hein?”, disse o legista para o enfermeiro. Henrique lembrou que Elza tinha parado de beber há um ano e meio. Percebeu que a bebida era uma máscara, da qual tinha que se libertar. Confessou certa vez: “Henrique, o alcoólatra não bebe até cair. Ele procura pelo limite da última dose, que o permita acordar bem no outro dia. Para continuar bebendo...”.
O legista retirou o pulmão e depois o útero. “Útero – pequeno e vazio. Vazio”, repetiu ele, olhando Henrique ao seu lado. Ele não pôde deixar de lembrar o aborto de Elza. Ela desesperada. Estava sem grana. Não conhecia o pai da criança. Tinha medo das condições do aborto no Brasil. Chorou muito com Henrique. Amigos de amigos indicaram uma clínica particular, onde pôde fazer os procedimentos com segurança. Pela primeira vez teve vontade de voltar para a Europa.
Com uma concha, o enfermeiro começou a retirar o sangue da cavidade torácica e a vertê-lo dentro de vasilhames de vidro graduado. Filosofou: “Morreu de hemorragia interna e externa. ‘A vida de toda carne é o sangue’, está nas escrituras. Foi atingida a subclave esquerda”.
Nesse momento, olhando o interior da amiga todo na mesa, Henrique uniu os pontos da vida de Elza com seu assassinato: “Foi passional. Muita paixão! Alguém tentou amá-la profundamente. Conseguiu?”, refletiu com uma grande questão na alma.
Nas mãos enluvadas o legista segurou o coração. Parecia uma pera; escuro. “Duzentos e vinte e cinco gramas”, disse ele, pesando na balança. “Não foi atingido”, emendou.
“Justamente”, pensou Henrique, “não foi atingido! O assassino entregou-se à Elza, mas não conseguiu atingir seu coração. Teve que matá-la para conseguir seu coração...”. Um terrível calafrio o atravessou. Sentiu-se ainda mais enjoado. A sala começou a rodar. Uma dúvida enorme o tomou: “225 gramas, um coração pequeno ou grande? Elza tinha um coração pequeno ou grande?”.

DUZENTOS E VINTE E CINCO GRAMAS – uma releitura (6/6)

Os órgãos foram colocados de volta ao corpo. A pessoa de Elza ressurgiu. Henrique estava abalado por dentro. “Acabou”, disse o legista. “Fiquei até o fim”, respondeu. “Ficou, ficou sim”, falou o legista. “Agora vou-me embora”, continuou Henrique, falando baixo. “Vai, vai”, disse o legista, com certo desalento.
Saiu pelo corredor, passou pela porta-balcão e adentrou a sala. O mundo ainda rodava à sua volta. Os dois rapazes tinham ido embora. Só queria reencontrar o mundo lá fora. Pegou o elevador, desceu e correu para a saída. Na porta da rua o sol bateu em cheio no seu rosto. Ele fechou os olhos e cobriu-os com as duas mãos. Disse: “putaquepariu”, ainda com as mãos no rosto. E pensou: “Elza morreu porque viveu intensamente a vida!”. Descobriu o rosto, olhou para os lados e fez o mundo parar de rodar. Sentiu, por dentro, que ainda teria que ligar muitos pontos do que foi a curta e intensa vida de Elza.

Trecho de um diário

Serei um louco? Um louco culpado? Um louco que quer se desfazer de sua culpa? Que quer arrancar a culpa do seu mais profundo eu? Cada dia escrevo com uma letra. Isso é loucura. Me abraça, doce loucura! Agora não me sinto só. Nesse momento sinto o que é a experiência da escrita. A escrita experimental. Qual é o limite? Tateio palavras. Lambo palavras. Chupo palavras. Elas escorrem pelos cantos da boca. Sinto os limites. O além das palavras. A dobra, a tal dobra. Sinto a farsa. A grande farsa. Loucura?

por... que... sim?

mais e mais
até o desejo
de ficar e mais.
passei por mil
entranhas até chegar
ao teu desejo.
quero cheirar
o teu sexo
até flanar
com a tua lua.
flor, no meu calor
não tenho medo
de dizer:
te quero,
no meu calor.
venha, sentir-me
sem pudor,
só nós dois
porque não?
venha, meu amor
é só amor.
sim, eu sou assim,
sem pudor.
senta. sente.
o meu calor.
te beijo, te calo.
me calo.
é bom, é bom,
venha, me abraça,
é simples, é assim,
tão simples, por
que sim, por
que não?

4.9.13

aaaaaaah!

 "Mas nesta época eles dançavam pelas ruas como piões frenéticos e eu me arrastava na mesma direção como tenho feito toda a minha vida, sempre rastejando atrás de pessoas que me interessam, porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam e jamais dizem coisas comuns mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop - pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos "aaaaaaah!"

[Jack Kerouac, In: "On the road"]

língua

senti tua lingua
doce em meu pescoço.
lingua do mundo,
do desejo em mim,
que tem o cheiro
do oriente perdido.
instante de resgate:
tens a força do deleite
inebriado pela doce fruta,
de amarelo flamejante e
adocicada pelo vento.

3.9.13

Sinceridades sobre Insinceridades

"Não tenho tido tempo de escrever mentiras. Quero começar. Suponho que não quis olhar para elas. Se unidade é impossível para o escritor que é 'um mar de protoplasma espiritual, capaz de fluir em todas as direções, de engolfar todo objeto em seu caminho, de gotejar em cada fresta, de encher todo molde', como disse Aldous Huxley em Contraponto, pelo menos a verdade é possível, ou a sinceridade sobre as insinceridades de alguém".

[Anaïs Nin, in: "Henry & June"]

2.9.13

O poder da poesia

A poesia tem o poder dos mantras. No primeiro contato, o "hare krishna" parece inofensivo, não aparenta qualquer potência. Repetido e repetido e repetido, indefinidamente, é de um poder indescritível.
Certa vez, uma noite de mantra me salvou de uma grave dor física. A poesia salvou toda minha vida. Encontrei, na poesia, o poder cósmico do mundo.

1.9.13

Chama!

o mar chama
(quanto você ama?)
estou em chama
(o amor cabe na cama?)

***

você me chama
me sequestra, me ama
o amor
é puro calor
em chamas,
na cama