6.9.13

DUZENTOS E VINTE E CINCO GRAMAS – uma releitura (5/6)

O legista retirou o fígado. “Fígado – um quilo e cem gramas. Ela não bebia, certamente, tivemos um aqui, outro dia, com dois quilos e tanto, hein?”, disse o legista para o enfermeiro. Henrique lembrou que Elza tinha parado de beber há um ano e meio. Percebeu que a bebida era uma máscara, da qual tinha que se libertar. Confessou certa vez: “Henrique, o alcoólatra não bebe até cair. Ele procura pelo limite da última dose, que o permita acordar bem no outro dia. Para continuar bebendo...”.
O legista retirou o pulmão e depois o útero. “Útero – pequeno e vazio. Vazio”, repetiu ele, olhando Henrique ao seu lado. Ele não pôde deixar de lembrar o aborto de Elza. Ela desesperada. Estava sem grana. Não conhecia o pai da criança. Tinha medo das condições do aborto no Brasil. Chorou muito com Henrique. Amigos de amigos indicaram uma clínica particular, onde pôde fazer os procedimentos com segurança. Pela primeira vez teve vontade de voltar para a Europa.
Com uma concha, o enfermeiro começou a retirar o sangue da cavidade torácica e a vertê-lo dentro de vasilhames de vidro graduado. Filosofou: “Morreu de hemorragia interna e externa. ‘A vida de toda carne é o sangue’, está nas escrituras. Foi atingida a subclave esquerda”.
Nesse momento, olhando o interior da amiga todo na mesa, Henrique uniu os pontos da vida de Elza com seu assassinato: “Foi passional. Muita paixão! Alguém tentou amá-la profundamente. Conseguiu?”, refletiu com uma grande questão na alma.
Nas mãos enluvadas o legista segurou o coração. Parecia uma pera; escuro. “Duzentos e vinte e cinco gramas”, disse ele, pesando na balança. “Não foi atingido”, emendou.
“Justamente”, pensou Henrique, “não foi atingido! O assassino entregou-se à Elza, mas não conseguiu atingir seu coração. Teve que matá-la para conseguir seu coração...”. Um terrível calafrio o atravessou. Sentiu-se ainda mais enjoado. A sala começou a rodar. Uma dúvida enorme o tomou: “225 gramas, um coração pequeno ou grande? Elza tinha um coração pequeno ou grande?”.

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