6.9.13

DUZENTOS E VINTE E CINCO GRAMAS – uma releitura (3/6)

“Boa tarde. Em que posso servi-los?”
“Nós somos amigos, éramos amigos da dona Elza Wierck, a moça que foi...“, balbuciou um dos rapazes.
“Lamentável”, disse o legista, “lamentável. Pobre moça! Prenderam o tarado que a matou, não prenderam? Era o namorado, não era?”
“Nós éramos amigos dela”, falou o outro rapaz.
“Ela não tem parentes?”, perguntou o legista.
“Não sei”, respondeu um dos jovens senhores.
“Acho que não”, disse o outro.
“Ela era suíça”, disse o legista, esfregando as mãos como se estivesse muito satisfeito em ouvir aquilo. “Uma linda mulher”, continuou, “pode-se ver, mesmo agora.”
Henrique não abriu a boca. Conhecia Elza muito bem para dar informações pessoais ao frio legista. Ligou, então, mais alguns pontos da vida dela. A jovem suíça, que veio descobrir o Brasil. E se descobrir. Ela sempre dizia a Henrique: “A Suíça é muito fria. As pessoas são muito distantes”. Ele não entendia como ela conseguiu deixar a Europa e todas as benesses do primeiro mundo. “Lá vocês tem tudo. Saúde, educação, civilidade. Aqui é uma barbárie!”, dizia. Talvez a barbárie daqui tenha encurtado a vida de Elza. Mas, aqui, ela pôde viver intensamente. Viver as paixões que não viveria na fria civilização. “O que vale mais, a paixão ou a civilização?”, pensou Henrique.
“O senhor já fez a autópsia?”, intrometeu-se na conversa. “Não, não, ia iniciá-la quando me chamaram.”, respondeu o legista. “Nós viemos aqui...”. “Já sei”, cortou o legista, “os senhores querem assistir à autópsia”.
Henrique ficou furioso por ser interrompido. Já os dois rapazes se assustaram com a ideia de ver a autopsia. Ficaram visivelmente transtornados. O legista prosseguiu:
“Não sei se os três poderiam entrar; isso é muito irregular.”
“Bem”, disse um dos rapazes, já branco de medo, “não há necessidade; se não pode não pode – não vamos romper os regulamentos”.
Mas o legista continuou. Percebeu o jeito incomodado de Henrique. Ele entrava ou entrava.
“Nós sempre fazemos exceção para os parentes”, disse o legista. “A pobre moça não tem parentes no país, os senhores mesmo disseram. Coitada. Os senhores são como se fossem seus parentes; afinal, são amigos. Eu não sou daquele tipo de funcionário burocrático escravo dos regulamentos. Sou um médico – vejo o lado humano das coisas; para mim os regulamentos não podem ser obedecidos cegamente. Eu lhes digo o que vou fazer: permitirei a entrada de um dos senhores, para que assista a esta tarefa, que, infelizmente, tem que ser executada, está na lei.”
Um dos rapazes expos sua relutância e perguntou: “Mas é necessário?”. Estava realmente com medo. “Não poderia ter amado Elza profundamente”, pensou Henrique. “Não daria todo amor que ela demandava. Elza amava sem limites. Seu amor era o mundo. Não era falta de algo, era tudo”. Henrique ligou mais alguns pontos na vida que tinha acabado.
O legista foi incisivo: “Qual dos três? Ela está esperando”. Um dos rapazes balbuciou: “Qualquer um de nós...”. Henrique pensou, “mais um que não soube amar Elza”. E se dirigiu ao legista: “Eu vou”, encarando os dois rapazes, encarcerados em suas travas que não permitiram saber o que é amar Elza.

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