O celular tocou. No visor, o número de Renata. Estava atrasado para o trabalho. O café ainda pela metade. Hesitou, mas atendeu. Do outro lado, uma voz sombria, quase em pranto: “Elza morreu. Mataram Elza!”.
Não quis acreditar. Perguntou: “Como?”. A confirmação veio como um soco no olho. “Sim, Henrique! Elza foi assassinada. Mataram a facadas, na noite de ontem”. A amiga, ao telefone, já em prantos, não quis contar os detalhes. Não podia imaginar o que aconteceu. Não suportava saber o que fizeram com Elza. Estava em choque.
Henrique não perguntou mais nada. Apenas ouviu o pedido de Renata: “Vá ver Elza no IML! Eu não consigo. Você sabe que ela não tinha parentes por aqui”. Não hesitou em atender ao pedido da amiga. Por mais que tivesse compromissos inadiáveis no trabalho. A amizade é um sentimento maior do que o entendimento, a razão. Elza estava no IML desde a noite anterior. Pela manhã seria feita a autopsia de seu corpo. Era a última chance de ter um momento de intimidade com ela. Sem terminar o café, foi.
Chegou ao IML em trinta minutos. Não conseguiu trocar uma palavra com o taxista. Que não ousou puxar conversa, sabendo do destino do passageiro. No caminho, foi tentando ligar os pontos da vida de Elza. Com o terrível assassinato. Ainda estava confuso.
O táxi parou. Pagou a corrida e desceu. Entrou no edifício do IML e logo sentiu a energia do ambiente. Densa, cinza, carregada. Na recepção informou por quem procurava. A funcionária olhou um velho caderno de planilhas e respondeu, seca, direta: “Quinto andar. Segundo elevador à esquerda”. Henrique não pôde agradecer ao tom burocrático da recepcionista. Seguiu a indicação. Identificou-se na roleta. Segundo elevador à esquerda. Apertou o botão número cinco. O luminoso acima da porta contou: 1... 2... 3... 4... 5. A porta se abriu.
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