27.2.14

homem de sabedoria

o pássaro
no coqueiro
brisa, beira-mar
observo-o
conectado
do centro de meu abdômen
lhe dou uma missão
tento entender a minha
está no centro
sou fibras
tento compreender
dom juan

21.2.14

Palavras

As palavras me desafiam!
E elas significam tão desparatadamente.
O mundo vibra e as palavras, estáticas.
Elas me querem, me provocam, intentam
em vão não sei o que fazer.
Escrevo. Sem sucesso.
As imagens dizem mais.
Arco do Cemitério dos Inocentes, decorado à custa de Nicolas Flamel, Paris, in P. Arnold, Três Tratados de Filosofia, Paris, 1612.

20.2.14

Mamãe

Hoje chorei.
Chorei,
em frente ao mar,
em louvor a Mamãe.

Conversei, conversei,
escutei, muito mais,
tua beleza, Mamãe,
me encanta
por todos os cantos,
encontro uma deslumbrante
maravilha de segregos
no simples do teu
incompreensível.

Agradeço por tudo,
Mamãe,
por esta tarde
de sol, sal e mar
na qual te encontrei
- antes, me encontraste! -
em beleza pura.

A Lua
em nós,
Mamãe:
Chorei, chorei
por ti!

17.2.14

Iridescente

"Todas as recordações me voltaram de repente, e tudo ficou claro em minha mente. Virei-me para procurar Dom Juan, mas não conseguia distinguir nada nem ninguém. Eu só conseguia ver o cão ficando iridescente; uma luz intensa se irradiava de seu corpo. Torneia ver a água fluindo através dele, acendendo-o como a uma fogueira. Cheguei até à água, afundei meu rosto na panela e bebi com ele. Minhas mãos estavam diante de mim no chão e, enquanto eu bebia, vi o fluido correndo por minhas veias e criando tonalidades de vermelho, amarelo e verde. Bebi mais e mais. Bebi até estar todo em fogo; eu estava todo aceso. Bebi até que o liquido saiu de meu corpo por todos os poros, projetando-se para fora como fibras de seda, e eu também adquiri uma juba comprida, lustrosa e iridescente. Olhei para o cachorro e a juba dele era igual à minha. Uma felicidade suprema me encheu o corpo todo e corremos juntos para uma espécie de calor amarelo que vinha de algum lugar indefinido. E ali brincamos. Brincamos e lutamos até eu saber os desejos dele e ele saber os meus. Cada um manipulava o outro à maneira dos teatros de fantoches. E o fazia mexer as pernas quando torcia meus dedos dos pés e cada vez que ele batia a cabeça, eu sentia um desejo irresistível de saltar. Mas a maior travessura dele era fazer com que eu coçasse minha cabeça com o pé enquanto estava sentado, o que conseguia abanando as orelhas de um lado para outro. Isso para mim era inteira e insuportavelmente engraçado. Uma tal graça e ironia; tanto domínio, pensei. A euforia que se apossou de mim era indescritível. Eu ria até quase não poder respirar.

Tinha a sensação nítida de não conseguir abrir os olhos; eu estava olhando por um tanque de água. Era um estado longo e muito doloroso, cheio da ansiedade de não poder despertar, e no entanto de sentir-me acordado. Então, de repente, o mundo ficou claro e em foco. Meu campo de visão tornou-se novamente muito redondo e amplo, e com isso surgiu um ato consciente comum, que foi o de virar-me e procurar aquele ser maravilhoso. Nesse ponto, encontrei a transição mais difícil. A passagem de meu estado normal se dera quase sem eu sentir: eu tinha consciência; meus pensamentos e sentimentos eram um corolário dessa consciência; e a passagem foi clara e suave. Mas essa segunda modificação, o despertar para uma consciência clara e sóbria, foi verdadeiramente chocante. Eu tinha esquecido que era homem! A tristeza de uma situação tão irreconciliável foi tão intensa que eu chorei."

[Carlos Castañeda, in "The Teachings of Don Juan: A Yaqui Way of Knowledge"]

16.2.14

Cheia

A lua
A lua
A lua é cheia

Ela me preenche
Me faz vivo
Tudo vem dela

A lua
A lua
A lua é cheia

Ela me faz belo
Em seu mistério
Sou pleno

A lua
A lua
A lua é cheia

Em ti sou cheio
De amor em tudo
És linda

A lua
A lua
A lua é cheia

Eu danço por ti
Fera da noite
Tão doce delicadeza

A lua
A lua
A lua é cheia

Equilibra-me
Em teu esplendor
Me encanto

A lua
A lua
A lua é cheia

borboleta gigante azul

21/10/2013: Hoje eu estava voltando do almoço, pela rua, em meio a dúvidas sobre a vida. Dúvidas que me colocavam certas opções mais pessimistas para encarar essa vida. Dúvidas que se conformavam em uma polarização entre seguir o caminho positivo e propositado ou ir por aquele do sobreaviso, do receio, do que desconfia. No auge desse embate feroz sobre qual trilha seguir, o acontecimento: uma borboleta gigante azul passou por mim! Vindo por detrás, quase num rasante (não fosse seu voo aparentemente errático), ela surgiu no meu olhar com a resposta que eu precisava. Assim, simples, foi magia, a borboleta mágica. É claro que a vida é polo caminho da felicidade, do positivo, do belo! Meu dilema estava liquidado por uma “frágil” borboleta. Segui contente, renovado, remistificado. As borboletas gigantes azuis são seres místicos, nos dão a resolução para nossos dilemas.

13.2.14

Tarde

A brisa esfria
o mar é nascimento
dança a alma
cai o sol.
Nuvens ralas de beleza
lindas, permeiam-nos.
Ritmo lento, vibra a maresia:
a onda é vida
o limiar está no horizonte.
Tudo está aqui
o nada nos procura;
Beleza em detalhes
a fuga não é necessária,
reverbera o silêncio.
Moreno, brasa, calor
volúpia de viver,
abafa e queima.
É fim de tarde,
perdidos no sem-tempo.
Não passa, não passa:
A lua é calma
tem no céu a alma.

11.2.14

Pós-viagem [trecho diário]

De volta para casa. Intenso. Muito intenso. Tudo. Duas semanas. Tanta coisa acontecida. Não consigo escrever sobre tudo. Não sobra tempo. Calor. Insuportavelmente calor. Sampa. Salvador. Vitória. Brasília. Lembrarei de tudo? Sei lá. Vivi. Por onde começo? Hoje? Amanhã? Quando o frio chegar? Sei lá. Recordo com mais facilidade do que é recente. E o mais antigo? Seria mais fácil elaborar um lista. Do que fiz. E do que senti. Um lista. Simples. Aí eu não esqueceria. Marcaria tudo o que fiz. E senti. Recordaria tudo. Me pouparia do cansaço. Driblaria a preguiça e registraria tudo. Para escapar nada. Quem sabe eu faça isso. Não sei. Mas gosto de me arriscar nos projetos que podem ficar incompletos. Quero escrever tudo, repassar tudo. O tudo, diga-se, são as emoções. De agora. O que foi, foi. Não volta. As emoções vêm e vão. Hoje, ontem e amanhã. Quero escrevê-las. Há muito por detrás das palavras, que nelas não cabe. As palavras são pequenas. As emoções são sem fim. Eu sou dilemas. Bons dilemas. Gostosos dilemas. Escrevo. Vivo. Intensamente. 

8.2.14

terra

tu provocas ardência
em meu corpo
sinto o fel da terra
tua boca
em êxtase
teus lábios
nos meus...
sabes amar.

5.2.14

Não eu

Havia linhas à minha frente.
Não as enxergava;
agora as enxergo.
Desacreditava-as.
Acreditava que eram por mim,
só por mim
eu iria em frente.
Não sou eu. É não eu.
Compreendi.
Deixei de compreender
e aí fui.
Por inúmeras direções,
além do ir em frente.
Não pensamentos,
assim sigo,
sem mim.

1.2.14

poema sujo

na noite suja
eu escuto idiomas
e fumaças
intensidades
o gesto é breve, o que quer?
a música flui, intensa.
o espanhol é rápido. carajo!
os golpes existem.
dançar, dançar, dançar.
esplendor, amo tudo!!
generosidade, é festa!!
por favor,
venha, se achegue, dance!!!
ah, esse calor do nordeste...