"Todas as recordações me voltaram de repente, e tudo ficou claro em
minha mente. Virei-me para procurar Dom Juan, mas não conseguia
distinguir nada nem ninguém. Eu só conseguia ver o cão ficando
iridescente; uma luz intensa se irradiava de seu corpo. Torneia ver a
água fluindo através dele, acendendo-o como a uma fogueira. Cheguei até à
água, afundei meu rosto na panela e bebi com ele. Minhas mãos estavam
diante de mim no chão e, enquanto eu bebia, vi o fluido correndo por
minhas veias e criando tonalidades de vermelho, amarelo e verde. Bebi
mais e mais. Bebi até estar todo em fogo; eu estava todo aceso. Bebi até
que o liquido saiu de meu corpo por todos os poros, projetando-se para
fora como fibras de seda, e eu também adquiri uma juba comprida,
lustrosa e iridescente. Olhei para o cachorro e a juba dele era igual à
minha. Uma felicidade suprema me encheu o corpo todo e corremos juntos
para uma espécie de calor amarelo que vinha de algum lugar indefinido. E
ali brincamos. Brincamos e lutamos até eu saber os desejos dele e ele
saber os meus. Cada um manipulava o outro à maneira dos teatros de
fantoches. E o fazia mexer as pernas quando torcia meus dedos dos pés e
cada vez que ele batia a cabeça, eu sentia um desejo irresistível de
saltar. Mas a maior travessura dele era fazer com que eu coçasse minha
cabeça com o pé enquanto estava sentado, o que conseguia abanando as
orelhas de um lado para outro. Isso para mim era inteira e
insuportavelmente engraçado. Uma tal graça e ironia; tanto domínio,
pensei. A euforia que se apossou de mim era indescritível. Eu ria até
quase não poder respirar.
Tinha a sensação nítida de não conseguir
abrir os olhos; eu estava olhando por um tanque de água. Era um estado
longo e muito doloroso, cheio da ansiedade de não poder despertar, e no
entanto de sentir-me acordado. Então, de repente, o mundo ficou claro e
em foco. Meu campo de visão tornou-se novamente muito redondo e amplo, e
com isso surgiu um ato consciente comum, que foi o de virar-me e
procurar aquele ser maravilhoso. Nesse ponto, encontrei a transição mais
difícil. A passagem de meu estado normal se dera quase sem eu sentir:
eu tinha consciência; meus pensamentos e sentimentos eram um corolário
dessa consciência; e a passagem foi clara e suave. Mas essa segunda
modificação, o despertar para uma consciência clara e sóbria, foi
verdadeiramente chocante. Eu tinha esquecido que era homem! A tristeza
de uma situação tão irreconciliável foi tão intensa que eu chorei."
[Carlos Castañeda, in "The Teachings of Don Juan: A Yaqui Way of Knowledge"]