17.2.14

Iridescente

"Todas as recordações me voltaram de repente, e tudo ficou claro em minha mente. Virei-me para procurar Dom Juan, mas não conseguia distinguir nada nem ninguém. Eu só conseguia ver o cão ficando iridescente; uma luz intensa se irradiava de seu corpo. Torneia ver a água fluindo através dele, acendendo-o como a uma fogueira. Cheguei até à água, afundei meu rosto na panela e bebi com ele. Minhas mãos estavam diante de mim no chão e, enquanto eu bebia, vi o fluido correndo por minhas veias e criando tonalidades de vermelho, amarelo e verde. Bebi mais e mais. Bebi até estar todo em fogo; eu estava todo aceso. Bebi até que o liquido saiu de meu corpo por todos os poros, projetando-se para fora como fibras de seda, e eu também adquiri uma juba comprida, lustrosa e iridescente. Olhei para o cachorro e a juba dele era igual à minha. Uma felicidade suprema me encheu o corpo todo e corremos juntos para uma espécie de calor amarelo que vinha de algum lugar indefinido. E ali brincamos. Brincamos e lutamos até eu saber os desejos dele e ele saber os meus. Cada um manipulava o outro à maneira dos teatros de fantoches. E o fazia mexer as pernas quando torcia meus dedos dos pés e cada vez que ele batia a cabeça, eu sentia um desejo irresistível de saltar. Mas a maior travessura dele era fazer com que eu coçasse minha cabeça com o pé enquanto estava sentado, o que conseguia abanando as orelhas de um lado para outro. Isso para mim era inteira e insuportavelmente engraçado. Uma tal graça e ironia; tanto domínio, pensei. A euforia que se apossou de mim era indescritível. Eu ria até quase não poder respirar.

Tinha a sensação nítida de não conseguir abrir os olhos; eu estava olhando por um tanque de água. Era um estado longo e muito doloroso, cheio da ansiedade de não poder despertar, e no entanto de sentir-me acordado. Então, de repente, o mundo ficou claro e em foco. Meu campo de visão tornou-se novamente muito redondo e amplo, e com isso surgiu um ato consciente comum, que foi o de virar-me e procurar aquele ser maravilhoso. Nesse ponto, encontrei a transição mais difícil. A passagem de meu estado normal se dera quase sem eu sentir: eu tinha consciência; meus pensamentos e sentimentos eram um corolário dessa consciência; e a passagem foi clara e suave. Mas essa segunda modificação, o despertar para uma consciência clara e sóbria, foi verdadeiramente chocante. Eu tinha esquecido que era homem! A tristeza de uma situação tão irreconciliável foi tão intensa que eu chorei."

[Carlos Castañeda, in "The Teachings of Don Juan: A Yaqui Way of Knowledge"]

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