Entraram na sala de autópsia. Ela estava deitada numa mesa de mármore. Vestia uma saia, blusa de seda estampada e não calçava sapatos. Henrique viu que estava serena. Como se estivesse descansando após uma grande festa. Festa que foi sua vida nos últimos tempos.
A sobriedade do ambiente o incomodou. Havia um enfermeiro e um escriturário sentados, sérios, pareciam não ter alma. Os procedimentos burocráticos deveriam ser executados.
“Primeiro temos que tirar a roupa dela”, disse o legista. Tiraram a saia, a blusa, as peças íntimas. Era uma saia de tergal, uma blusa de seda estampada, sutiã de nálion e uma calça também de náilon. O escriturário anotou. Henrique nunca tinha visto Elza com essas roupas. “Deve ter ganho na sua recente paixão”, pensou.
“O homem queria mesmo matar”, disse o legista, olhando o corpo profissionalmente. “Veja quantas facadas.” Os ferimentos, como se fossem desenhos, espalhavam-se pelo corpo.
Lavaram o corpo e uma água vermelha, como vinho, desceu pelos cantos da mesa. Com um estilete graduado, o legista começou a medir os ferimentos. “Um com três centímetros na face externa do terço superior do braço esquerdo.” O escriturário tomava nota. “Um na região axilar esquerda, dois centímetros e meio, perfurante. Dois na face interna hemitorácica esquerda, cada um com quatro centímetros.” O legista enfiava o estilete nos ferimentos e olhava cuidadosamente as marcas do instrumento. “Ferimentos profundos. Amor profundo”, imaginou Henrique. Elza deve ter achado sua verdadeiro paixão, que a amou profundamente. Refletia em meio ao horror de ver as feridas no corpo.
O enfermeiro, então, abriu com um bisturi o corpo inteiro de Elza, da garganta à região pubiana. “Depois cose-se tudo”, explicou o legista, “a reconstituição é perfeita. A linha aparece, é claro.” O enfermeiro levantou a cabeça de Elza e com um bisturi abriu o seu crânio. Começaram a tirar tudo de dentro do corpo.
Henrique sentiu-se enjoado pela primeira vez. Mas continuava a ligar os pontos da vida de Elza. A abertura do corpo remeteu à abertura dos sentimentos quando ela amava. Elza abria todos os cantos de sua alma para quem quisesse amá-la. Todos seus sentimentos deveriam ser vividos por quem a amasse. Depois, fazia com que colocassem tudo de volta. Uma tarefa hercúlea. Poucos a amaram em sua plenitude.
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