6.9.13

DUZENTOS E VINTE E CINCO GRAMAS – uma releitura (4/6)

Henrique adentrou, guiado pelo legista, o corredor que levava até a sala de autópsia. Não podia imaginar como se encontrava o corpo de Elza. Se vestida, qual roupa estaria usando. Se nua, como o corpo estaria ferido. Apenas se lembrou da última vez que a tinha visto. Duas semanas atrás. “Estava exuberante. Tinha um brilho nos olhos. Uma chama no corpo. Irradiante”, recordou, saudoso. Ela contou que estava descobrindo o que era se entregar a alguém. Sem se prender. Estava com alguém, mas não quis contar quem. Elza não cabia em si.
Entraram na sala de autópsia. Ela estava deitada numa mesa de mármore. Vestia uma saia, blusa de seda estampada e não calçava sapatos. Henrique viu que estava serena. Como se estivesse descansando após uma grande festa. Festa que foi sua vida nos últimos tempos.
A sobriedade do ambiente o incomodou. Havia um enfermeiro e um escriturário sentados, sérios, pareciam não ter alma. Os procedimentos burocráticos deveriam ser executados.
 “Primeiro temos que tirar a roupa dela”, disse o legista. Tiraram a saia, a blusa, as peças íntimas. Era uma saia de tergal, uma blusa de seda estampada, sutiã de nálion e uma calça também de náilon. O escriturário anotou. Henrique nunca tinha visto Elza com essas roupas. “Deve ter ganho na sua recente paixão”, pensou.
 “O homem queria mesmo matar”, disse o legista, olhando o corpo profissionalmente. “Veja quantas facadas.” Os ferimentos, como se fossem desenhos, espalhavam-se pelo corpo.
Lavaram o corpo e uma água vermelha, como vinho, desceu pelos cantos da mesa. Com um estilete graduado, o legista começou a medir os ferimentos. “Um com três centímetros na face externa do terço superior do braço esquerdo.” O escriturário tomava nota. “Um na região axilar esquerda, dois centímetros e meio, perfurante. Dois na face interna hemitorácica esquerda, cada um com quatro centímetros.” O legista enfiava o estilete nos ferimentos e olhava cuidadosamente as marcas do instrumento. “Ferimentos profundos. Amor profundo”, imaginou Henrique. Elza deve ter achado sua verdadeiro paixão, que a amou profundamente.  Refletia em meio ao horror de ver as feridas no corpo.
O enfermeiro, então, abriu com um bisturi o corpo inteiro de Elza, da garganta à região pubiana. “Depois cose-se tudo”, explicou o legista, “a reconstituição é perfeita. A linha aparece, é claro.” O enfermeiro levantou a cabeça de Elza e com um bisturi abriu o seu crânio. Começaram a tirar tudo de dentro do corpo.
Henrique sentiu-se enjoado pela primeira vez. Mas continuava a ligar os pontos da vida de Elza. A abertura do corpo remeteu à abertura dos sentimentos quando ela amava. Elza abria todos os cantos de sua alma para quem quisesse amá-la. Todos seus sentimentos deveriam ser vividos por quem a amasse. Depois, fazia com que colocassem tudo de volta. Uma tarefa hercúlea. Poucos a amaram em sua plenitude.

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