Os gregos antigos falavam que a amizade era a condição para a política. Para se fazer política - essa atividade de seres humanos que decidem autonomamente seu futuro - era necessário construir a amizade. A amizade enquanto a constituição de um mundo comum, pelo estabelecimento de relações afetuosas, através da linguagem humana, que respeite as diferenças. Ter amigos é essa coisa tão bela da vida.
Tenho me perguntado sobre a relação entre amizade e paixão. Seriam dois sentimentos antagônicos? Talvez não antagônicos, mas quase que impossíveis de se encontrarem num mesmo lugar e momento? Onde há paixão deixa de existir amizade? Ou, como pensavam os gregos antigos, a amizade seria uma construção feita primordialmente pela linguagem, portanto predominando a racionalidade em detrimento de sentimentos como a paixão?
A amizade se basearia na paixão, sim, mas com uma boa distância em relação ao outro, nosso amigo ou amiga. E, nesse sentido, não seria possível apaixonar-se por um amigo, pois a amizade cessaria, perderia o distanciamento necessário.
Wislawa Szymborska assim escreveu, no poema "Gratidão", sobre o amor (que aqui estou chamando "paixão"): "Devo muito / aos que não amo. / O alívio com que aceito / que sejam mais benquistos por outros". Pois é esse alívio - o qual só a amizade pode nos dar - que permite entender e perdoar o que jamais o amor (ou a paixão) entenderia ou perdoaria. Assim é que "Desde o encontro até a carta / não passa uma eternidade, / senão simplesmente dias ou semanas". O tempo da amizade é um; o da paixão, outro.
Não sei, não quero acreditar nessa incompatibilidade entre amizade e paixão. Tenho pensado que esse seria um dos desafios de nossa existência na rápida passagem por esse plano astral. Viver a amizade e a paixão, juntos, simultaneamente. Não só no sentido do "minha paixão é minha melhor amiga". Mas em sentidos mais sutis, que envolvem sentimentos tão carregados de energia, de identificação, que mal conseguimos controlar. Como o medo de se apaixonar por um amigo e perder a amizade. Ou o fim da paixão que é o fim de toda e qualquer possibilidade de amizade.
Creio que um desafio tremendo seja ir da paixão à amizade (e vice-versa) sem perder algo no meio de todos esses sentimentos tão intensos: o amor. O amor está em tudo, é a fonte vital. E assim como não nascemos sabendo amar (pois o erro, quem sabe, é supor que já se sabe amar), nos esquecemos do amor. Paixão é amor. Amizade é amor. Viver é amar: o que emana do centro vital do cosmo que está em nós.
Então a paixão que vira amizade pode ser aquela que reverencia o amor que está em todos nós. Transitar bem entre esses sentimentos - principalmente nas paixões mais intensas - é fazer um grande exercício de compreensão sobre o amor que nos atravessa. O hercúleo exercício de entender onde está o amor em determinado momento de paixão ou de amizade. Ou, mesmo, questionar se o amor tem que estar em algum desses polos. Vivenciar a paixão que é um tanto de amizade, ou aquela que agora (depois de tudo, tão intensa e carnalmente, sentida) é um tanto mais de amizade. Enfim, aceitar que o amor está lá, a ser reverenciado.

Nenhum comentário:
Postar um comentário